Epidemiologista José Verani na XIX Conferência do Rotary Distrito 4651

A Pólio Plus é o maior programa da Fundação Rotária, por isso, no dia 20 de maio de 2017, o epidemiologista José Fernando de Souza Verani estará em nossa XIX Conferência Distrital do Rotary Distrito 4651, para falar sobre a sua experiência na erradicação da pólio e o seu trabalho com a Fundação Rotária.

Como epidemiologista da Organização Mundial da Saúde (OMS), Verani atuou na erradicação da varíola em Bangladesh e Somália, na erradicação da pólio nas Américas, Paquistão e Afeganistão, e no controle do sarampo no Egito, Síria, Índia e África. Por quase dez anos, foi consultor da Fundação Rotária para o Programa Pólio Plus na África, Américas e Ásia. Como epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vem realizando pesquisas para o aprimoramento da vigilância sanitária de doenças contagiosas no Brasil.

WAN YU CHIH: Qual foi a experiência mais marcante que o senhor teve em sua carreira de epidemiologista internacional?

JOSÉ FERNANDO DE SOUZA VERANI: A experiência mais marcante que tive foi ter investigado e contido as últimas cadeias de transmissão da varíola na Somália em 1977, e ter contribuído para o envolvimento de milhares de Rotary Clubs na erradicação da pólio.

O que senhor sentiu ao ver o último caso de varíola da face da Terra?

Uma grande satisfação. O último caso de varíola maior [altamente mortal] na face da terra foi o de uma menina de 3 anos, Rahima Banu, de Bangladesh. Ela ficou doente em outubro de 1975 e felizmente no final de novembro estava curada. Conheci ela em dezembro, em uma celebração organizada pelo Ministério da Saúde do país e pela OMS. O último caso de varíola menor [menos agressiva que a varíola maior] foi encontrado em um rapaz, em outubro de 1977, na região em que eu trabalhava, na Somália Meridional, mas não o conheci pessoalmente pois já havia retornado ao Brasil em setembro, com a situação sob controle.

Quando a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) iniciou o Programa de Erradicação da Pólio nas Américas em 1985, os profissionais de saúde pública vieram até o Brasil para serem treinados. A Iniciativa Global de Erradicação da Pólio, lançada pela OMS em 1988, adotou​ os mesmos procedimentos do curso que o senhor ajudou a montar?

Sim, as estratégias de erradicação do poliovírus selvagem seguem até hoje o mesmo padrão em todas as outras regiões do mundo: vacinação em massa com a vacina antipólio oral, vigilância de casos suspeitos de pólio, vigilância viral (sequenciamento genético) e mobilização social. Essas estratégias foram adotadas pela OPAS com base na experiência desenvolvida no Brasil e em outros países das Américas. O curso elaborado e ministrado na ENSP/Fiocruz em 1985 teve como objetivo padronizar as estratégias do programa e expandi-las em todo o continente americano.

Como foi a sua experiência em trabalhar com a Fundação Rotária e com os Rotary Clubs?

Ter trabalhado com o Programa Pólio Plus da Fundação Rotária trouxe-me grandes satisfações e realizações. De um lado, discutir no “Board of Trustees” [Conselho de Curadores] da Fundação projetos propostos pelos rotarianos e, de outro, trabalhar com os Rotary Clubs no fortalecimento das coberturas vacinais e da vigilância epidemiológica, além de outras atividades, trouxe grande impacto no atingimento às metas de interrupção da transmissão do poliovírus do programa.

A experiência mais marcante que tive foi ter investigado e contido as últimas cadeias de transmissão da varíola na Somália em 1977, e ter contribuído para o envolvimento de milhares de Rotary Clubs na erradicação da pólio.

Por que o programa da OPAS foi mais bem sucedido na erradicação da pólio que o programa da OMS?

A Região das Américas teve sucesso mais rápido na erradicação. Embora tenhamos tido obstáculos como os causados pelas guerrilhas na região da América Central, a percepção de que a erradicação era em benefício de todos contribuiu para a organização dos “Dias de Tréguas”, quando podia-se acessar as comunidades não vacinadas e não cobertas pela vigilância de casos suspeitos de pólio. Creio que o programa de erradicação da OMS continua fazendo avanços importantes e que estamos muito perto da erradicação global da pólio, não obstante os conflitos nos países ainda endêmicos, Afeganistão, Paquistão e Nigéria.

O Brasil utilizou intensivamente a mobilização social para conseguir se livrar da pólio. Pode se dizer o mesmo dos últimos países com a doença no mundo?

Sim, a mobilização social nesses países tem sido crítica para se manter as atividades do programa. Um exemplo é o avanço da Nigéria nas áreas em que há ainda bolsões de crianças sem vacinar. Com a mobilização de amplos setores locais, nacionais e internacionais, estamos presenciando as últimas cadeias de transmissão da doença.

No Brasil, estamos às voltas com a dengue, zika, chikungunya e febre amarela – todas elas causadas pelo mosquito Aedes aegypti. Se já conseguimos eliminar até o vírus da pólio no país, por que não conseguimos acabar com o mosquito?

A complexidade dessas doenças e de seu modo de transmissão dificultam seu controle, mesmo havendo uma vacina eficiente como a antiamarílica, no caso da febre amarela. Os esforços realizados para intensificar o controle dos mosquitos têm tido impactos variáveis de acordo com a região do país. Os altos índices de infestação dos mosquitos transmissores desses vários arbovírus são resultado da falta de investimento em saneamento básico, educação e desenvolvimento social no país.

Há 15 anos, o senhor afirmou que o Paquistão seria o último país a erradicar a pólio. Por que o senhor fez essa previsão?

Pela difícil situação politico-militar entre o Afeganistão e o Paquistão que impossibilita o acesso à vacinação de grupos importantes de crianças, particularmente em áreas tribais do Paquistão, permitindo que as cadeias de transmissão do vírus se mantenham. Coincidentemente ou não, o Paquistão foi o último pais do Sudeste Asiático a erradicar a varíola nos anos 70.

Os norte-americanos Donald Henderson, Bill Foege e Larry Brilliant tornaram-se figuras conhecidas na área da saúde pública, com livros que narram suas façanhas na erradicação da varíola que chamam a atenção do público, inclusive de jovens que são atraídos para a profissão. Que brasileiros o senhor destacaria como personalidades da saúde pública?

Há vários brasileiros que contribuíram de modo importante para a saúde pública e não cabe relacionar para não ser injusto. Um, no entanto, teve papel relevante tanto na erradicação da varíola quanto na da pólio, sarampo e rubéola – o Dr. Ciro de Quadros [que erradicou a varíola na Etiópia e dirigiu o programa de erradicação da pólio da OPAS].

Ao receber o prêmio TED em 2006, o epidemiologista Larry Brilliant disse que o mundo deveria estar preparado para o surgimento de um novo vírus que poderia atingir até 1 bilhão de pessoas em uma pandemia global, e para isso precisaríamos criar um sistema de alerta para monitorar o surgimento, em tempo real, de novas ameaças. Qual a sua opinião a respeito?

O mundo está criando condições para operar a vigilância global de modo efetivo. A detecção precoce de eventos que possam impactar a saúde publica mundial é hoje consenso de todos os países. O Regulamento Sanitário Internacional [da OMS] em vigor desde 2005 tem hoje força de lei e o monitoramento de ameaças é feito, em maior ou menor intensidade, por todos os países.

Existem críticas de que o dinheiro e o esforço gastos no combate à pólio poderiam ser usados para sanar outras doenças que afligem um número maior de crianças. Que mensagem o senhor deixaria para quem pensa assim?

Erradicar uma doença é investir no futuro. Essa decisão é tomada baseando-se em um processo complexo de análise de evidências científicas sobre as doenças candidatas à erradicação, inclusive do ponto de vista econômico.

A consolidação da erradicação da pólio, em breve, deixará um marco definitivo na cooperação do Rotary com a saúde pública, inaugurando uma importante era da parceria público-privada.

Depois que a pólio for erradicada, teremos um novo programa global de erradicação? De qual doença?

No momento não existem candidatos a um novo programa de erradicação. Contudo, existe um grande esforço da OMS para se intensificar a erradicação do vírus do sarampo e da rubéola, os quais foram eliminados da região das Américas recentemente [em 2016]. A manutenção de altas taxas de cobertura vacinal é a principal estratégia para manter os vírus afastados até que se alcance a sua erradicação. Provavelmente, nos próximos anos veremos a erradicação mundial dessas doenças.

O senhor atuou em países com graves conflitos na época: Somália, e Angola. Como foi a sua experiência em relação à segurança pessoal?

Vivi em Angola em plena guerra civil, de 1978 a 1981. Havia confrontos dentro de Luanda e uma situação de penúria em todos os setores. Não obstante, pude viajar por todo o pais, pelas estradas, sempre com escolta. Na Somália, em 1977, não existia a guerra civil que existe hoje, mas a guerra com a Etiópia, que nos assustou bastante. Enquanto estávamos no campo investigando casos suspeitos de varíola, era comum os sobrevoos dos caças MIG da União Soviética, na época aliada à Somália.

E no Paquistão e Afeganistão, o senhor teve receio dos Talibãs? E na Síria? O que o senhor sente ao acompanhar pelo noticiário a situação desses países?

Durante minha estadia no Paquistão, em Peshawar, cidade que foi berço dos Talibãs, há 13 km de fronteira ao noroeste com o Afeganistão, e não tive problemas de segurança. Antes de 2001, quando houve o ataque norte-americano ao Afeganistão, havia uma relativa paz e podia-se trabalhar em campo sem problemas. Quanto à Síria, país maravilhoso e historicamente dos mais importantes, ainda não estava em guerra. Sinto uma enorme tristeza ao acompanhar a situação desses países.

Ainda há espaço para organizações como o Rotary atuarem na saúde pública global?

Certamente! A consolidação da erradicação da pólio, em breve, deixará um marco definitivo na cooperação do Rotary com a saúde pública, inaugurando uma importante era da parceria público-privada.

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José Fernando de Souza Verani é natural de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Bacharel em Ciências Sociais pela UFRJ, Doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ESPN/Fiocruz), onde atua como docente do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia, e Pesquisador da Fiocruz, onde coordena o grupo de pesquisa sobre Vigilância em Saúde Pública.

A entrevista foi concedida a Wan Yu Chih, associado ao Rotary Club de Florianópolis e Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária do Distrito 4651.

Crise de refugiados da Síria: o que o Rotary está fazendo?

shelterbox

“A Síria é uma das maiores crises de refugiados da nossa era, uma causa contínua de sofrimento para milhões de pessoas que deveriam estar recebendo mais apoio do mundo”, declarou Filippo Grandi, Alto Comissário da UNHCR, Agência para Refugiados das Nações Unidas.

O que começou como uma manifestação pacífica contra o presidente sírio Bashar al-Assad, em março de 2011, acabou se transformando em uma enorme guerra civil interétnica, sem perspectivas de acabar.

Mais de 400.000 pessoas já perderam suas vidas, e mais de 6 milhões permanecem deslocadas em áreas sitiadas de difícil acesso na Síria. Diariamente, 6.000 pessoas fogem do país, e 4 milhões estão refugiadas em outros países. Destas, centenas de milhares são jovens desacompanhados.

A maioria dos refugiados chega somente com algumas roupas e pertences. Muitos estão feridos devido ao contínuo bombardeio.

John Hewko, Secretário Geral do Rotary International, afirmou, “A situação dos refugiados da Síria é um teste definitivo para a compaixão do mundo”, e fez um apelo: “façam como os Rotarianos têm feito há mais de 100 anos: ajudem usando as suas habilidades profissionais e conexões, mobilizando suas comunidades locais para levantar ajuda para essa crise humanitária.”

Os membros do Rotary podem ajudar apoiando os esforços de assistência humanitária da ShelterBox.

Desde que foi criada em 2000 por um grupo de Rotary Clubs da Grã Bretanha, a ShelterBox se espalhou pelo mundo e vem atendendo casos de desastre por acidentes naturais e conflitos humanos, entregando ajuda humanitária através de kits de emergência para famílias desabrigadas. Cada kit contém uma barraca com capacidade para 10 pessoas, uma lona, colchonetes, cobertores, fogareiro, panelas, pratos e talheres, recipiente e filtro para purificação de água e, conforme o clima, um aquecedor a querosene.

Além do apoio financeiro, o Rotary tem tido um papel importante para a ShelterBox à medida que os Rotary Clubs – 35.000 em 200 países e regiões – atuam como o primeiro ponto de contato da organização, assim que ocorre um desastre e pessoas são deslocadas de suas casas, em praticamente qualquer lugar do mundo.

A ShelterBox tem prestado auxílio à crise da Síria desde 2012, distribuindo kits de sobrevivência para mais de 9 mil famílias. Ao todo já foram gastos mais de US$ 5 milhões em ajuda humanitária.

A ajuda é levada aos campos de refugiados nos países vizinhos.  Mas em Aleppo e outras partes da Síria onde a necessidade de ajuda humanitária é imensa, é difícil ter acesso aos necessitados. As equipes somente podem prestar apoio quando as condições de segurança o permitem.

Apesar das proporções da crise, os refugiados da Síria são apenas uma parte das 65 milhões de pessoas do mundo em igual situação. Conflitos na Somália, Honduras, Ucrânia e Burundi continuam expulsando as pessoas de seus países em uma escala jamais vista antes.

Somente a cessação do conflito pode dar fim ao sofrimento dos refugiados e essa responsabilidade está com aqueles que estão no poder. Contudo, face às dimensões sem precedentes do problema, cabe também um maior envolvimento e solidariedade de todas as nações e pessoas do planeta.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotary 2016-2019

Fontes: Rotary International, ShelterBox e UNHCR.

O homem que queria salvar o mundo

First Phase Digital

Em uma viagem ao Azerbaijão, em 1996, um país que esteve em guerra com a Armênia, o ministro das relações exteriores acompanhou Sérgio a um campo de refugiados. Quando vários deles se aproximaram, ele lhes disse que iria se encontrar com o presidente do país no fim do dia e perguntou, “Vocês querem que eu leve alguma mensagem a ele?” Uma velha senhora falou da melancolia que sentia por não poder voltar à sua casa no campo. Ele continuou caminhando e conversando com outros refugiados, oficiais do governo e trabalhadores da ONU. No fim da visita, o ministro acompanhou Sérgio à saída, onde um automóvel o aguardava. Quando estava para entrar no carro, ele parou e disse, “Preciso ver aquela senhora novamente.”

A delegação retornou à barraca da mulher, onde ela permanecia em pé do lado de fora. “Do que você sente mais falta?”, perguntou Sérgio. “Minha vida inteira vivi e cuidei da terra sozinha. Nunca dependi de ninguém. Agora, estou aqui há três anos dependendo das doações da ONU para viver. É muito difícil.”, e ela olhou para o chão com tristeza. “E o que você quer para você?”, ele perguntou. Olhando para ele, ela disse, “Eu quero subir aos céus e virar uma nuvem. Quero ir pelo céu até o meu pedaço de terra, e quando encontrá-lo quero virar chuva e cair à terra, até poder ficar para sempre no lugar que eu pertenço.” Sérgio sabia que a crise não seria resolvida durante a vida dela, mas ele prometeu fazer o que estivesse ao seu alcance.

Aos 21 anos de idade, Sérgio Vieira de Mello foi trabalhar no Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, UNHCR, onde, durante 34 anos, atuou na ajuda humanitária em praticamente todos os principais conflitos armados do planeta – guerras civis, genocídios e terrorismo.

Sérgio prestou assistência humanitária a refugiados em Bangladesh durante a independência em 1971; no Sudão no fim da guerra civil em 1972; no Chipre após a invasão da Turquia em 1974; em Moçambique durante a guerra civil em 1975; no Líbano durante o conflito com Israel em 1981; no Cambodja entre 1991 e 1993; participou das forças da paz da ONU na Croácia, Bósnia-Herzegovina em 1993; em Ruanda, após o genocídio da etnia Hutu sobre a Tutsis em 1994.

De 1999 a 2002, ele atuou pela ONU, como administrador da transição de governo do Timor Leste, tendo que planejar o retorno dos refugiados, reintegrar as forças militares do país, criar uma estrutura de governo, definir uma nova constituição, organizar eleições, e cuidar da reconstrução do país, de hospitais e escolas.

Em 2002, Sérgio Vieira de Mello foi designado Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Ele foi o primeiro brasileiro a chegar ao alto escalão da ONU, e era considerado por muitos como o virtual sucessor de Kofi Annan na Secretaria-Geral das Nações Unidas.

Então, acontecem os ataques de 11 de setembro às torres gêmeas de Nova Iorque e, em maio de 2003, mesmo à contragosto, ele é nomeado representante especial do Secretário-Geral da ONU no Iraque, para aquela que seria a sua última missão.

Por ter atuado na separação do Timor Leste da Indonésia (um país islâmico), sem saber, ele havia se tornado um alvo da Al Qaeda. Três meses após assumir o cargo, um caminhão-bomba explode ao se atirar contra o prédio da ONU em Bagdá. Sérgio, fica soterrado sob as ruínas por mais de três horas. Ele ainda consegue se comunicar com a equipe de resgate através dos escombros, mas em vão.

Sergio Vieira de Mello morreu em 19 de agosto de 2003. Ele era considerado por muitos a personificação do que a ONU deveria ser.

Em sua memória, em dezembro de 2008, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução estabelecendo o dia 19 de agosto como o Dia Mundial Humanitário, para homenagear todos os trabalhadores que perderam suas vidas no cumprimento de sua missão, na promoção da causa humanitária apoiando as vítimas de conflitos armados.

A Fundação Rotary compartilha da missão de promoção da paz e redução de conflitos, apoiando projetos realizados pelos Rotary Clubs em 220 países e regiões, e através da formação de líderes pelas Bolsas Rotary pela Paz.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotary 2016-2019

Artigo baseado no livro “O homem que queria salvar o mundo” de Samantha Power, Embaixadora dos EUA na ONU no governo de Barack Obama.

Fevereiro: mês da paz e resolução de conflitos

No Rotary, fevereiro é o mês dedicado à paz e resolução de conflitos – uma da seis áreas de enfoque da Fundação Rotary. Conheça os artigos publicados neste site, desde que ele foi criado. (Clique nos links para ler os artigos.)

O que faz o curador da Fundação?

mariocesarcamargo

Esta pergunta me ocorreu logo após minha confirmação como curador entrante. Passada a surpresa (pois o cargo parecia ser de acesso exclusivo a ex-diretores, mas não é), passei por um treinamento em março deste ano, e participei da primeira reunião em abril, como ouvinte. A minha primeira participação efetiva ocorreu em 10 de junho, logo após a Convenção Internacional do Rotary em São Paulo.

Os coordenadores regionais da Fundação trabalhariam sob meu comando? Os coordenadores de Doações Extraordinárias também? Ambas as funções operam para aumentar doações e projetos da Fundação Rotária em suas respectivas Zonas Rotárias.

A resposta é não, para ambos os casos. Essas funções se reportam ao diretor da Zona Rotária. Diretores têm vínculo territorial, curadores não. Diretores representam seus países ou um conjunto de países. Curadores não têm território; eles cuidam dos interesses de sustentabilidade da Fundação.

Compõem o conselho de curadores, quatro ex-presidentes do Rotary, quatro ex-diretores americanos da nossa organização, um canadense, um coreano, um ugandense, um turco, um espanhol, um indiano, um brasileiro (eu) e o secretário-geral do Rotary. Entre os brasileiros vivos que já exerceram a função encontram-se José Alfredo Pretoni e Antonio Hallage.

Os curadores não têm função operacional na rotina da Fundação Rotária, mas são os responsáveis pela sustentação dela no longo prazo.

A primeira função é cuidar dos ativos da Fundação, de forma a garantir a perpetuidade da instituição, e os recursos adequados para a concessão de subsídios para os programas. É nossa função, segurar, investir e administrar todos os fundos e propriedades da Fundação Rotária. Estamos falando de mais de 1 bilhão de dólares em ativos, que precisam ser rentáveis para garantir os programas da Fundação Rotária.

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Os curadores podem vender bens da Fundação, delegar poderes, investir e reinvestir em títulos, ações ou imóveis. Podem também determinar se o dinheiro pode ser utilizado para os projetos da Fundação, ou mantido como reserva para atingir objetivos específicos como, por exemplo, o programa Pólio Plus, para o qual foram destinados 40,3 milhões de dólares no primeiro semestre de 2015, referendados naquela reunião de junho, em São Paulo. Entre os países beneficiados, Camarões, Chade, Congo, Etiópia, Níger, Nigéria, Sudão do Sul, Afeganistão, Paquistão e Somália. Cada subsídio aprovado tem um processo pertinente, pois a Fundação não libera 40 milhões de dólares sem um estudo cuidadoso da aplicação.

Outro exemplo é, na mesma reunião, a aprovação de Subsídios Globais acima de cem mil dólares, que são necessariamente submetidos ao Conselho de Curadores. Cada projeto é aprovado mediante análise prévia da Cadre (Equipe de Consultores Técnicos da Fundação Rotária), dos coordenadores regionais da Fundação, e submetido ao Conselho com a justificativa pertinente. Essa justificativa envolve uma avaliação das necessidades da comunidade, a descrição do projeto, a sustentabilidade, os clubes parceiros, a fonte de recursos dos clubes e o orçamento resumido do projeto. A participação dos rotarianos e das comunidades, bem como das entidades parceiras, também são avaliadas. Na reunião de São Paulo, foram aprovados Subsídios Globais no valor de 1,12 milhão de dólares, beneficiando quatro distritos no Sri Lanka, na Nova Guiné, nas Filipinas e em Uganda.

Também na agenda estava o relatório do gerente geral da Fundação, John Osterlund, sobre os subsídios Distritais e Globais do período 2014-15, até 30 de abril. Em resumo, foram concedidos 451 Subsídios Distritais, num total de 24,1 milhões de dólares em Fundos Distritais, mais 826 Subsídios Globais, num total de 53,2 milhões de dólares, sendo 22,3 milhões de dólares do Fundo Mundial. Dessas 826 iniciativas, nas seis áreas de enfoque que norteiam os projetos da Fundação, 98 foram de educação, 261 de prevenção de doenças, 131 de desenvolvimento econômico, 60 de saúde infantil, 45 de prevenção de conflitos e 231 de água e saneamento. Essa divisão entre as seis áreas de enfoque mostra algumas tendências macro em termos de necessidades comunitárias.

Outra responsabilidade do curador é criar e administrar parcerias da Fundação Rotária com outras entidades afins. Atualmente, há um comitê conjunto com os diretores que trata exclusivamente de parcerias, com uma relação das maiores e melhores fundações mundiais potencialmente parceiras do Rotary em projetos humanitários.

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Logo após minha primeira reunião no Conselho de Curadores, na condição de ouvinte, fui agraciado com um presente: um iPad de última geração, com um aplicativo chamado “Boardbooks”, pelo qual a Fundação envia informações aos curadores. Há os livros atuais, como a súmula da reunião de junho de 2015, bem como históricos, como os arquivos das decisões anteriores. O centro de recursos contém as minutas das reuniões dos diretores e curadores desde 2011, o Código de Políticas do Rotary, o Código da Fundação, o Manual de Procedimento. Também engloba os orçamentos do Rotary e da Fundação, o Official Directory, o Manual dos Curadores, os Institutos deste ano, a agenda de reuniões anual, o organograma da sede e a lista telefônica de todo o estafe. Não há espaço para alegar ignorância: é como se tivessem implantado um chip em sua cabeça.

Mas voltemos às funções do curador. A relação de funções compreende, também, avaliar regularmente os programas da Fundação, sob o ponto de vista orçamentário e mesmo de conteúdo.

Além da função de gerir os recursos da Fundação, os curadores participam de comitês específicos. No meu caso, do Comitê de Programas, do Comitê Financeiro, do Comitê de Relações com ex-Bolsistas e, como curador de ligação, com o Comitê Estratégico Conjunto da Fundação e do Rotary.

O Comitê de Programas, cuja reunião ocorreu entre os dias 8 e 11 de julho [de 2015], tem um objetivo claro: a avaliação do Plano Visão de Futuro. O programa foi analisado detalhadamente. Seus cinco objetivos foram atingidos? Eles eram simplicidade, eficácia de custos, maior envolvimento do rotariano e clubes, sustentabilidade e consistência com a missão da Fundação. As críticas foram consideradas: as dificuldades dos clubes em entender o conceito de sustentabilidade, a controvérsia sobre a lista de despesas “permitidas”, a polêmica dos custos das bolsas versus os programas humanitários, a vedação ao investimento em construções, as dificuldades de comunicação das novas diretrizes aos distritos, as barreiras da tecnologia e do estafe.

A avaliação envolve um processo de consultorias externas, visitas da Cadre aos projetos, pesquisas de satisfação junto aos distritos. Mas algumas conclusões preliminares já foram apresentadas: de 2013-14 para 2014-15, o número de Subsídios Globais aumentou, passando de 868 para 1.078 (de um total de 1.652 solicitações). Seu valor pulou de 47,3 milhões de dólares para 68,7 milhões de dólares. O tempo de processamento do Subsídio Global foi reduzido de 195 para 105 dias, com meta de 40 dias úteis. O dos Subsídios Distritais passou de 59 para 36 dias úteis, com meta de 10 dias úteis.

O relatório final sairá em março de 2016. Ainda estamos na fase das perguntas na avaliação. Como dizia Confúcio, “não procuro saber as respostas; ainda procuro entender as perguntas”.

Artigo de Mário César de Camargo, curador da Fundação Rotária 2015-2019, publicado na revista Rotary Brasil em três partes, nas edições de julho, agosto e setembro de 2015. Editado.

Resultado dos Editais de Subsídios do Distrito 4651 2016-17

logo d4651

 

 

 

ROTARY INTERNATIONAL DISTRITO 4651
COMISSÃO DISTRITAL DA FUNDAÇÃO ROTARY
SUBCOMISSÃO DISTRITAL DE SUBSÍDIOS

É com satisfação que comunicamos aos Rotary Clubs do Distrito 4651 os resultados do Edital de Subsídio Distrital 2016-2017 e do Edital de Apoio a Projetos de Subsídio Global com recursos do FDUC – Fundo Distrital de Utilização Controlada, conforme Comissão Julgadora formada pela Governadora Distrital, pelo Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotary e pelo Presidente da Subcomissão Distrital de Subsídios da Fundação Rotary, nos termos dos editais publicados em 18/08/2016.

1) Edital de Subsídio Distrital

Rotary Club de Balneário Camboriú-Praia do Atlântico

Projeto: Fornecimento de máquina de costura para confecção de kits para os primeiros dias dos bebês de mães carentes do município de Balneário Camboriú, por voluntárias do Grupo de Caridade Meimei.
Beneficiário: Grupo de Caridade Meimei
Área de enfoque: Saúde Materno-Infantil
Valor do subsídio: R$ 3.697,37

Rotary Club de Florianópolis
Projeto: Fornecimento de televisor para a sala de música da Associação Novo Alvorecer, para o aprendizado das crianças e adolescentes carentes da comunidade Vila Aparecida no bairro Coqueiros.
Beneficiário: Associação Novo Alvorecer
Área de enfoque: Educação básica e alfabetização
Valor do subsídio: R$ 1.788,45

Rotary Club de Florianópolis-Jurerê
Projeto: Fornecimento de material esportivo para crianças e adolescentes carentes do norte da ilha, que serão terão aulas de basquete, em projeto coordenado pelo Rotary Club de Florianópolis-Jurerê.
Beneficiário: Escola Básica Prof. Herondina Medeiros Zeferino
Área de enfoque: Educação básica e alfabetização
Valor do subsídio: R$ 836,08

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Sem bons professores, não há futuro.

mozartneves

Países como Coreia do Sul, Finlândia, Cingapura, Canadá e Japão, que estão no topo da educação mundial, têm pelo menos um aspecto em comum: ser professor é objeto de desejo. No ranking de status do professor em 21 países, a China está em primeiro lugar, e o Brasil na penúltima colocação, atrás apenas de Israel.

Todos concordam: para uma educação de qualidade, o professor é a peça mais importante. Mas, no Brasil, existem mais razões para um jovem não querer ser professor, do que para ser.

Quem diz isso é o Prof. Mozart Neves Ramos, ex-Reitor da Universidade Federal de Pernambuco, e Diretor do Instituto Ayrton Senna, um dos parceiros do Movimento Santa Catarina pela Educação.

Como reverter esse quadro?

É preciso tornar atrativa a carreira docente e para isso são necessárias quatro medidas.

(1) Formação inicial compatível com o chão de escola

Um dos fatores que mais contribuem para o nosso baixo desempenho escolar no ensino médio e nas séries finais do ensino fundamental é a escassez de bons professores com formação compatível à disciplina que lecionam.

O que acontece hoje, é que temos um número extremamente elevado de professores dando aula numa disciplina para a qual eles não foram formados. Por exemplo: dos que ensinam física, 61% não tiveram formação na disciplina ou em outra da mesma área de conhecimento; em química e matemática, esse percentual é de 44%.

(2) Salários atraentes

Para muitos, o status de um profissional em uma sociedade depende de quanto ele recebe em termos absolutos ou relativos.

Em 2013, a remuneração média dos professores brasileiros equivalia a 57% daquela dos demais profissionais com nível superior completo. A maior diferença é observada na área de exatas: o salário médio do professor em 2013 equivalia a um terço do que recebiam outros profissionais com formação semelhante.

(3) Plano de carreira associado à formação e desempenho

A desigualdade salarial varia muito de acordo com o estágio profissional na carreira. Em 2015, o MEC elevou o piso salarial do docente de escola pública com formação de nível médio com jornada de 40 horas semanais para R$ 1.917,78. Assim, no caso dos recém-formados, estamos mais perto de equiparar os professores aos demais trabalhadores com nível superior.

O problema é que, a partir daí, as outras carreiras registram aumentos muito maiores à medida que o profissional adquire experiência, enquanto que os professores vão ficando para trás.

(4) Escolas equipadas com os recursos necessários ao bom desempenho do professor

Menos da metade das escolas do ensino básico no Brasil podem ser consideradas escolas no melhor sentido do termo. Isto é, tem sala de professores, sala de diretor, salas de aula suficientes, biblioteca, sala de informática e quadra esportiva – e isso sem entrar no mérito da qualidade desses ambientes. Na média, as escolas municipais têm apenas 5 computadores por escola para os alunos.

Enquanto tentamos resolver os problemas que não conseguimos resolver no século passado, os países avançados já estão preparando os jovens para as habilidades necessárias no século 21: resolução colaborativa de problemas, pensamento crítico, criatividade e inovação, trabalho em rede, e fluência nas mídias eletrônicas.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotary 2016-2019

Artigo baseado em trechos extraídos do livro “Educação brasileira: uma agenda inadiável” de Mozart Neves Ramos; dados de infraestrutura das escolas do censo escolar de 2015 do INEP.