A incrível aventura de Mathias Rust

No auge da Guerra Fria, um jovem alemão realizou uma façanha inimaginável que ajudou a alterar o curso da história.

Com apenas 19 anos de idade e 50 horas de voo, Mathias Rust saiu da Alemanha em um pequeno avião monomotor, atravessou a defesa área da União Soviética por 800 quilômetros, até pousar na Praça Vermelha em Moscou, em 28 maio de 1987.

“Minha intenção era criar uma ponte imaginária entre os dois blocos. O que me levou a fazer isso foi o fracasso do encontro de cúpula entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev na Islândia, no outono de 1986. A Guerra Fria estava no auge e havia um grande risco de termos uma catástrofe nuclear. Eu quis mostrar aos políticos que somente através do diálogo poderíamos sair da crise.

O mais difícil foi arrumar coragem. Teria eu a coragem de voar através da Cortina de Ferro?”

“De Hamburgo fui para Helsinki. Depois de atravessar a fronteira da Estônia, de repente, um caça soviético MiG-23 apareceu. Meu coração congelou e entrei em pânico. Minha hora chegou, pensei.”

O risco era enorme. A Cortina de Ferro que separava a União Soviética do resto do mundo era protegida por mais de 2.000 caças e 8.000 mísseis antiaéreos. Em 1983, um Boeing 747 da Korean Airlines foi abatido em pleno ar por um caça soviético, matando seus 269 ocupantes. A aeronave procedente de Nova Iorque estava indo para Seul, e havia invadido o espaço aéreo soviético por engano.

Poucos meses depois, um exercício nuclear dos Estados Unidos levou a União Soviética ao pânico e quase iniciou uma Guerra Atômica.

“Nada aconteceu. Mas, naquele momento, soube que tinha que seguir em frente.

Quando cheguei em Moscou, não foi fácil encontrar a Praça Vermelha. Sobrevoei a praça umas duas ou três vezes, de cinco a oito metros de altura, porque havia muitas pessoas, e eu não queria ferir ninguém. Cada vez que eu tentava aterrissar surgiam mais pessoas. Daí avistei uma ponte que dava para a praça. Pousei nela e taxiei até a praça como se fosse um carro.

Quando saí do avião, uma pequena multidão se aproximou. Estavam todos alegres e sorridentes. Me perguntaram de onde eu vinha. Eu disse que tinha vindo para apoiar Gorbachev no desarmamento e eles aplaudiram.”

Mathias foi preso pela KGB e sentenciado a quatro anos de prisão.

O acontecimento disparou uma série de eventos que mudou a face do mundo. Como pode um simples rapaz com uma pequena aeronave enganar o sistema de defesa de uma das maiores potências militares do mundo?

Gorbachev aproveitou o incidente e demitiu o alto escalão das forças armadas, que se opunha à proposta de desarmamento e liberalização iniciada por ele.

No mês seguinte, em 12 de junho de 1987, o presidente Reagan foi à Berlim, e posicionado em frente ao Portal de Branderburgo conclamou,

“Secretário Geral Gorbachev, se você quer a paz, se você procura a prosperidade para a União Soviética e o Leste Europeu, se você procura a liberalização, venha até aqui, até esse portão. Senhor Gorbachev, derrube este muro!”

Em dezembro de 1987, Gorbachev e Reagan finalmente concordaram em reduzir seus arsenais atômicos, apesar de não em sua totalidade, como queria Mathias. Mas, como gesto de boa vontade, ele foi solto após 14 meses na prisão.

Na noite de 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim foi derrubado; em 1990, Gorvachev recebeu o Prêmio Nobel da Paz; em 25 de dezembro de 1991, após uma tentativa fracassada de derrubá-lo do poder, e com a economia em ruínas, Gorbachev renunciou ao cargo de presidente. No dia seguinte, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas deixava de existir.

O Brasil também tem a sua própria Guerra Fria. A cada dia, enfrentamos uma guerra silenciosa em nossas cidades.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o nosso país possui a 9a maior taxa de homicídios do planeta: 30,5 homicídios para cada 100 mil pessoas – maior que a taxa de homicídios do Afeganistão e Iraque.

Considerando todos os aspectos de violência, inclusive aqueles associados à guerra, dos 163 países do Global Peace Index, o Brasil está na 108acolocação, bem abaixo dos mais pacíficos do mundo. Iraque, Afeganistão e Síria ocupam as últimas posições.

Além do sofrimento que inflige, a violência é cara.

No Brasil, o custo resultante da violência somado ao de sua prevenção é de US$ 402 bilhões por ano, o equivalente a 12% do Produto Interno Bruto. Nosso país está em 4o lugar dentre os que mais gastam ou perdem com a violência, abaixo apenas dos EUA, Índia e China.

Será que não podemos fazer nada para mudar esse cenário?

Como rotarianos podemos fazer uso dos recursos da Fundação Rotária para promover a paz e a compreensão entre os povos.

Podemos desenvolver projetos de subsídios globais na área da paz e resolução de conflitos, tirando meninos das ruas, contribuindo para a sua profissionalização, ou educando os jovens para a paz. E através das Bolsas Rotary pela Paz, podemos formar futuros líderes nas áreas da paz e resolução de conflitos, para atuarem inclusive no desarmamento nuclear e redução de homicídios.

Não precisamos ter a ousadia e coragem de Mathias Rust para mudar o mundo. Mas podemos fazer alguma coisa.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-2019

Fonte: “Mathias Rust: the teenager who flew to Red Square”, The Guardian, 28/05/2012. “World Health Statistics 2017”, World Health Organization, “Global Peace Index 2017”, Institute for Economics and Peace.

Memórias que não podem acabar

Passados 71 anos, em 27 de maio de 2016, pela primeira vez na história, um presidente norte-americano esteve no local da explosão da bomba atômica em Hiroshima.

Muitos japoneses acham que a detonação da bomba foi injustificada e esperavam um pedido oficial de desculpas do governo americano.

Barack Obama não se desculpou, mas fez uma reflexão profunda das causas que levaram à tragédia. E muitos acharam que o seu gesto foi o suficiente.

O clima foi solene. O silêncio quase que total. Além de Obama, ouvia-se apenas o som dos pássaros ao fundo. Após terminar o discurso, ele abraçou um dos sobreviventes da bomba atômica que estava na cerimônia.

Setenta e um anos atrás, em uma manhã de céu azul, a morte veio do céu, e o mundo mudou. Um clarão de luz e de fogo destruiu uma cidade, e mostrarou que a humanidade possuía os meios de destruir a si mesma.

Por que viemos a este lugar, à Hiroshima? Viemos refletir sobre uma terrível força que foi liberada em um passado não tão distante. Viemos para lamentar os mortos… mais de 100.000 homens, mulheres e crianças…

Suas almas falam conosco. Elas pedem para olharmos para dentro, vermos o que somos, e o que podemos nos tornar…

Nossos antigos ancestrais, tendo aprendido a fazer lâminas a partir de lascas de pedra e lanças a partir de madeira, usaram esses instrumentos não apenas para caçar – mas os usaram contra a sua própria espécie. Em cada continente, a história da civilização é repleta de guerras… Em cada conflito, inocentes sofreram mortes incontáveis, seus nomes esquecidos pelo tempo.

A guerra que chegou ao seu final brutal em Hiroshima e Nagasaki foi travada entre as nações mais ricas e poderosas… E ainda assim, ela surgiu do mesmo instinto de dominação e conquista que causou conflitos entre tribos desde tempos distantes…

No espaço de alguns anos, 60 milhões de pessoas irão morrer… fuziladas, explodidas, encarceradas, sufocadas…

Ainda assim, na imagem de uma nuvem em formato de cogumelo que se eleva nesse céu, somos duramente lembrados da contradição existente no seio da humanidade.

… de como aprendemos com facilidade justificar atos de violência em nome de uma causa maior…

Nações se elevam contando histórias que unem pessoas em sacrifício e cooperação através de feitos marcantes… Mas essas mesmas histórias são frequentemente usadas para oprimir e desumanizar aqueles que são diferentes.

A ciência nos possibilita comunicar através dos oceanos e voar acima das nuvens, curar doenças e compreender o cosmos, mas essas mesmas descobertas podem ser transformadas em máquinas eficientes, cada vez mais mortais.

As guerras da era moderna nos ensinam essa verdade. Hiroshima ensina essa verdade. O progresso tecnológico, sem o equivalente progresso das instituições humanas, pode nos assombrar. A revolução científica que levou à divisão do átomo também requer uma revolução moral.

Por isso viemos aqui. Estamos aqui e nos forçamos a pensar no momento em que a bomba caiu. Nos forçamos a sentir o pânico das crianças perdidas com o que viam. Escutamos um choro silencioso…

Meras palavras não podem dar voz a tanto sofrimento. Mas compartilhamos a responsabilidade de olhar diretamente para a história e perguntar o que podemos fazer de diferente para evitar tanto sofrimento novamente.

Algum dia, as vozes dos sobreviventes da bomba não irão mais estar conosco para servir de testemunho. Porém, a memória da manhã do dia 6 de agosto de 1945 não pode se apagar…

E desde aquele fatídico dia, temos feito escolhas que nos dão esperanças… Uma comunidade internacional estabeleceu instituições e tratados que trabalham para evitar a guerra, e aspiram restringir, reduzir e eliminar as armas atômicas.

Mesmo assim, qualquer ato de agressão entre nações, qualquer ato de terror e corrupção e crueldade e opressão que vemos no mundo mostra que o nosso trabalho nunca terá fim. 

Não podemos eliminar a capacidade do homem em fazer o mal, então as nações e alianças que formamos precisam ter meios para nos defender. Mas em as nações como a minha que possuem armas atômicas, precisamos ter coragem e fugir à lógica do medo e perseguir um mundo sem elas.

Não iremos realizar este objetivo durante o meu tempo de vida, mas um esforço persistente pode reduzir a possibilidade de uma catástrofe. Podemos traçar um curso que irá levar à destruição dessas armas…

Mas isso ainda não basta… Precisamos mudar o nosso modo de pensar sobre a guerra. Precisamos prevenir conflitos através da diplomacia e nos esforçar para acabar com os conflitos, antes que eles comecem… Precisamos definir nossas nações não pela capacidade de destruir, mas de construir…

Isso é o que faz nossa espécie única. Podemos aprender. Podemos escolher. Podemos contar às crianças uma história diferente, uma que fala sobre uma humanidade comum, uma que torna a guerra menos provável, e a crueldade menos aceita.

Vemos essas histórias nos sobreviventes da bomba…

… a insistência de que cada vida é preciosa, a noção de que somos parte de uma única família humana — essa é a história que precisamos contar.

Por isso vim à Hiroshima. Para que pudéssemos pensar nas pessoas que amamos. O primeiro sorriso de nossos filhos de manhã. O gentil toque de uma esposa na mesa da cozinha. O abraço reconfortante de um pai, de uma mãe. Podemos pensar nessas coisas e imaginar que esses mesmos momentos preciosos tiveram lugar aqui mesmo, a 71 anos atrás.

Aquele que morreram são como nós. Pessoas comuns compreendem isso. Elas não querem mais a guerra. Elas querem que a ciência se foque na melhoria da vida, e não na sua eliminação. Quando as escolhas feitas pelas nações, quando as escolhas feitas pelos líderes refletirem essa simples sabedoria, então a lição de Hiroshima será sido aprendida.

O mundo mudou para sempre aqui… Este é um futuro que nós podemos escolher, um futuro em que Hiroshima e Nagasaki serão conhecidos não como o amanhecer do armamento nuclear, mas como o início do nosso próprio despertar moral.

Traduzido e editado por Wan Yu Chih.

Sobreviventes para sempre

“Ainda me lembro daquele dia a 71 anos atrás… do dia em que a bomba atômica foi atirada.

Desde primeiro de agosto, todos os dias depois das 8 horas da manhã tocava o alarme do ataque aéreo. No primeiro dia um avião B-29 sobrevoou a cidade, mas nada aconteceu.

Mas em 6 de agosto, depois que o alarme disparou, veio o B-29 e a bomba atômica foi jogada explodindo a 600 metros do solo. Imediatamente as casas de madeira pegaram fogo a uma temperatura de 4.000 graus e, com um choque, uma grande quantidade de gás radioativo cobriu o chão”, contou Jiro Kawatsuma, Rotariano, um dos sobreviventes mais ativos da bomba atômica, durante a Conferência Presidencial da Paz do Rotary International, em Atlanta, Estados Unidos.

“Pessoas como eu estão perdendo a força para falar sobre sua experiência e continuar a campanha contra o uso das armas nucleares. Não estarei aqui daqui a 10 ou 15 anos, então a pergunta que fazemos é como continuaremos enviando a nossa mensagem? Temos o dever de continuar transmitindo a mensagem para honrar a memória daqueles que não estão mais aqui”, concluiu o Sr. Kawatsuma.

“Naquele outono em Hiroshima, diziam, nada irá nascer nesse solo por 75 anos. Contudo, novos brotos surgiram, e o verde retornou à vida entre as ruínas carbonizadas, e as pessoas recuperaram a vontade e esperança de viver.” Com essas palavras, Hiroko Seki, do Rotary Club de Tokyo-Yoneyama Yuai, apresentou o projeto “Green Legacy Hiroshima”, ou Legado Verde de Hiroshima.

O projeto foi iniciado em 2011 pela UNITAR de Hiroshima – braço das Nações Unidas para pesquisa e treinamento em resolução de conflitos e manutenção da paz – “com o objetivo de doar as sementes de árvores sobreviventes da explosão de Hiroshima, levando assim, ao mundo todo, a mensagem de paz e esperança do povo de Hiroshima.”

Em seguida, falou Makiko Nakasone, do Rotary Club de Los Angeles-Little Tokyo.

“A foto do presidente Obama abraçando um sobrevivente da explosão, em maio de 2016, ecoou profundamente em mim, dando-me um forte sentimento de que, como japonesa e Rotariana, tinha que fazer a minha parte levando a mensagem de paz de Hiroshima. Estava ansiosa por ter que falar sobre o bombardeio atômico sobre Hiroshima na Conferência Mundial da Paz de Michigan, em janeiro deste ano nos Estados Unidos.

Tive que refletir com cuidado sobre a tragédia da guerra e a posição dos Estados Unidos, que usou a bomba atômica sobre o Japão. Mas depois, fiquei surpresa em receber várias manifestações de Rotarianos do país, desejosos em receber as sementes das árvores sobreviventes para plantio, como símbolos da paz.”

“Com recursos da Fundação Rotária, o Rotary Club de Los Angeles-Little Tokyo em parceria com o Rotary Club de Tóquio-Yoneyama Yuai, Rotary Club de Hiroshima-Southeeast e o Rotary E-club do Distrito 2750, e a UNITAR de Hiroshima, desenvolveram um projeto de subsídio global para realizar uma Conferência de Paz em Los Angeles junto à comunidade estudantil da cidade”, concluiu.

Desde 2014, diversos países passaram a fazer parte do projeto: Lituânia, Suécia, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Suíça, Itália, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Irã, Etiópia, África do Sul, Afeganistão, Cazaquistão, Rússia, Camboja, Singapura, Austrália, Coreia do Sul, Canadá, Estados Unidos, Colômbia, Chile e Argentina.

Cruz Vermelha Internacional e o Rotary são os parceiros internacionais do Green Legacy Hiroshima. O Rotary Distrito 4651 de Santa Catarina já está em tratativas com a UNITAR de Hiroshima para trazer a iniciativa ao Brasil.

Nilson Algarves, Governador do Distrito 4651 de Santa Catarina, 2012-2013, participou ontem da Conferência e recebeu uma amostra das sementes do projeto.

As sementes de Hiroshima produzirão mensagens de paz que ficarão plantadas para sempre, símbolo de novas esperanças nascendo de velhas raízes.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-2019.

O fim das armas nucleares

A hostilidade entre os países nucleares representa um risco imenso à humanidade.

Como pode um governante ter acesso a um botão e disparar um míssil nuclear, capaz de atingir o alvo em no máximo 10 minutos? Sem debate, sem discussão? E se o governante for uma pessoa… instável? E se tudo for um engano? E se a bomba for roubada e disparada por um terrorista?

O gráfico acima mostra o arsenal de armas nucleares existentes no mundo, prontas para serem disparadas contra o inimigo.

Precisamos realmente do arsenal atômico atual de 15.000 bombas, suficiente para destruir o mundo várias vezes? Afinal, bastariam 600 bombas para acabar com toda a população do planeta.

Se elas forem detonadas em um conflito, depois da explosão que faria as primeiras vítimas, o incêndio faria as vítimas seguintes. Em seguida viria a chuva radioativa que contaminaria o solo, ao mesmo tempo, a fumaça iria escurecer o céu de tal modo que esfriaria a temperatura da Terra, criando uma espécie de era do gelo causando um colapso no sistema global de alimentos, matando quem ainda continuasse vivo.

Para evitar que tenhamos uma tragédia global e irreversível, cinco países, entre eles o Brasil, propuseram uma resolução para dar início às negociações de um tratado visando o fim das armas nucleares no mundo.

Em 14 de outubro de 2016 a resolução foi votada e aprovada por 123 países. Foi um dia histórico para a ONU.

Porém, cerca de 40 países votaram contra, incluindo a Rússia, Estados Unidos, Reino Unido, França e, curiosamente, o Japão – único país a sofrer um ataque nuclear.

Em 27 de março deste ano, esses países contrários à resolução não compareceram à primeira reunião para a negociação do tratado, alegando que o momento não era adequado por não levar em conta os atuais conflitos existentes.

Os mais céticos questionam – de que adiantaria mais de 100 países assinarem um tratado se nenhum dos países com armas nucleares o cumprir?

São inúmeras as dificuldades para se controlar os estoques de armas e verificar as condições de segurança dos materiais atômicos. É quase impossível saber com certeza quantas armas existem em cada país, pois isso depende do que cada um declara. Além disso existe o risco de roubo das armas e delas virem a ser utilizadas por terroristas.

Por outro lado, os defensores do tratado acreditam que mesmo que as potências nucleares não assinem o tratado da ONU, mais cedo ou mais tarde elas acabarão sendo obrigadas a revisar suas políticas, face à opinião pública.

Processo semelhante ocorreu com o banimento de armas biológicas, armas químicas e minas terrestres. Apesar desses acordos não terem eliminado totalmente essas armas, elas acabaram sendo estigmatizadas, forçando a maioria dos países a destruírem seus estoques.

As organizações não governamentais desempenham um papel essencial nesses casos, pois conseguem representar os interesses das pessoas de bem, de forma mais direta e isenta que os governos, mobilizando a opinião pública.

A Fundação Rotária participa desse debate através dos Centros Rotary pela Paz, que formam de líderes para trabalharem em prol da justiça social, redução da pobreza e outras causas que levam à paz e resolução de conflitos.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-2019

Fontes: Gráfico extraído do artigo “World’s nuclear arsenal graphic” publicado na National Post em 4/5/2012; artigo “The UN makes history on a nuclear weapons. Does the US care?” publicado no Bulletin of the Atomic Scientists em 3/11/2016; matéria “World nuclear ban ‘not realistic’, says US ambassador to UN” publicado na bbc.co.uk em 27/03/2017.

Planeta atômico

No dia 6 de agosto de 1945, o mundo mudou para sempre. Naquele dia, o mundo conheceu a bomba atômica.

Hiroshima foi arrasada em segundos, matando 140.000 pessoas com a explosão, calor e radiação. Três dias depois, os Estados Unidos jogaram a segunda bomba.

Seria difícil chamar o impacto dessas bombas de pequeno: a Little Boy, usada em Hiroshima, tinha 15 kilotons de potência, e a Fat Man, usada em Nagasaki, 21 kilotons. O ataque à Tóquio de 25 de fevereiro de 1945 foi muito mais devastador. Cento e setenta e quatro aviões B-29 despejaram 450 toneladas de bombas incendiárias e bombas de fragmentação, hoje proibidas pela ONU, matando quase 200.000 pessoas em uma única noite.

Contudo, as primeiras bombas atômicas se tornariam apenas uma sombra das armas que viriam em seguida.

Com a escalada da Guerra Fria e da corrida armamentista, armas cada vez mais potentes foram criadas. Uma das maiores bombas detonadas em teste pelos Estados Unidos foi a Castle Bravo, com 15.000 kilotons. O auge da capacidade de destruição veio com a Tsar Bomba. O monstro tinha o poder de 50.000 kilotons — 3 mil vezes maior que a Little Boy de Hiroshima!

Quando a Tsar foi testada no Oceano Ártico ao norte da Rússia, em outubro de 1961, ela produziu um cogumelo atômico de 60 km de altura, 7 vezes a altura do Monte Everest. Todas as construções de um vilarejo localizado a 55 km do marco zero da explosão foram destruídas. A bola de fogo poderia causar queimaduras de terceiro grau em pessoas situadas a 100 km de distância. Em alguns pontos, a explosão foi sentida a 1.000 km de distância.

Para tentar mudar o mundo mais uma vez, 3.000 cientistas de 84 países, entre eles Stephen Hawking e outros 30 ganhadores do prêmio Nobel, assinaram uma Carta Aberta, em 27/03/2017, em prol da negociação do tratado de eliminação das bombas atômicas que se iniciou na ONU.

No infográfico abaixo, cada quadradinho vermelho equivale a 1 kiloton, ou seja, 1 tonelada de dinamite. Se você olhar o gráfico até o final e não ficar convencido de que temos um enorme problema, então nada mais irá.

Extraído do artigo “Visualizing the Frightening Power of Nuclear Bombs” publicado no site Visualnews em abril de 2012; e “An Open Letter from Scientists in Support of the UN Nuclear Weapons Negotiations” publicado em FutureOfLife em 27/03/2017. Traduzido e editado por Wan Yu Chih.

Sementes de Hiroshima

Durante a guerra contra os Estados Unidos, a Rádio Tóquio transmitia um programa diário destinado às tropas inimigas. Em meio a músicas ocidentais, notícias em inglês em tom humorado eram colocadas no ar para desestimular os soldados a continuarem lutando.

“Órfãos do Pacífico, aqui fala a sua inimiga favorita número 1. Como vocês irão voltar para casa, agora que os seus navios foram afundados?”

A locutora do programa, Iva Toguiri, ficou conhecida pelos americanos como a Rosa de Tóquio.

Norte-americana de pais japoneses, ela estava de visita ao Japão, em 1941, quando aconteceu o ataque à Pearl Harbor. Após ser impedida de retornar ao seu país de origem, Iva foi banida de casa pelos parentes japoneses, desgostosos por sua orientação pró-americana. Ela arrumou emprego como datilógrafa, e em seguida como locutora na rádio. Depois da Guerra, Iva foi presa e levada aos Estados Unidos onde foi julgada e condenada por traição, injustamente.

Quando a guerra chegou em seu momento derradeiro, a alegação de que milhares de vidas americanas seriam perdidas caso os Estados Unidos tivesse que invadir o país levou o presidente Harry Truman a ordenar que a bomba atômica fosse lançada contra o Japão.

Em um raio de 2 km do epicentro, tudo foi transformado em cinzas. Nada sobreviveu ao impacto e calor da explosão. Ou quase nada.

Apesar de queimadas, cento e setenta árvores sobreviveram. Localizadas onde fica hoje o Memorial da Paz de Hiroshima, elas renasceram pouco tempo depois, surpreendendo a população da cidade.

O fato de que uma nova vida pudesse brotar de algo tão devastador deu ao povo de Hiroshima esperança e coragem. As árvores viraram um símbolo de resiliência.

Sabe-se hoje que a intenção dos Estados Unidos em lançar a bomba era evitar que a União Soviética invadisse o Japão pelo norte do arquipélago, e dissuadir os soviéticos a iniciarem outras intervenções expansionistas.

Com o fim da guerra, o conflito entre as duas potências se intensificou e Estados Unidos e União Soviética começaram uma corrida armamentista sem precedentes.

O Japão foi o único país do mundo a ser bombardeado com armas atômicas. Apesar do sofrimento impingido, ele cresceu e prosperou. Tornou-se uma nação vibrante e a terceira maior economia do mundo. É uma ironia pensar que se não fosse pela bomba, quem sabe, teríamos um Japão dividido, politica e ideologicamente, como aconteceu com a Alemanha, Coreia e Vietnã.

No auge da Guerra Fria, em 1986, o mundo chegou a ter 64.000 armas atômicas. Mesmo com a derrocada da União Soviética e a redução do arsenal pelas grandes potências, existem ainda cerca de 15.000 ogivas atômicas montadas sobre mísseis de curta, média e longa distância, que podem ser lançados por terra, mar e ar.

Somente os Estados Unidos e a Rússia possuem 14.000 ogivas. Destas, 1.800 estão em permanente estado de alerta, prontas para serem disparadas a qualquer momento, podendo atingir o alvo em menos de 15 minutos. China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte dividem o restante do arsenal.

O uso de uma única arma atômica teria consequências inimagináveis hoje em dia – algumas delas chegam a ser 3.000 vezes mais poderosas que a bomba de Hiroshima.

Em 2011, diversas pessoas e entidades da cidade se uniram para criar o projeto “Green Legacy Hiroshima”, ou Legado Verde de Hiroshima, para enviar sementes e mudas das plantas sobreviventes, como uma mensagem de paz e entendimento entre os povos do munto.

O Rotary e a Cruz Vermelha são os parceiros internacionais da iniciativa.

As sementes irão colaborar com projetos de arborização e formação de novas áreas verdes em diversos lugares do planeta, inclusive locais que abrigavam material nuclear, como na África do Sul e no Cazaquistão. Outros países já plantaram as sementes, entre eles Estados Unidos, Rússia, Singapura e Argentina.

Promover a paz e boa vontade entre os povos também é a missão do Rotary. Por isso, antecedendo a Conferência Internacional do Rotary em Atlanta, Estados Unidos, nos dias 9 e 10 de junho, acontecerá a Conferência Presidencial da Paz, onde serão apresentados inúmeros projetos voltados à resolução das causas de conflitos, entre os quais o Green Legacy Hiroshima.

Símbolos da vida, as sementes nos lembram que a natureza é mais poderosa que o homem, e continuará a existir apesar dele.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-2019

Referências: “The Making of the Atomic Bomb” e “Arsenals of Folly”, ambos de Richard Rhodes, e “The Dead Hand” de David Hoffman.

Rotary na União Europeia

Mais de 240 rotarianos e convidados se reuniram no dia 8 de março na sede da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica, para o evento “Rotary na União Europeia”.

A exemplo do tradicional “Dia do Rotary nas Nações Unidas”, Rotarianos, dirigentes da ONU e líderes do mundo dos negócios discutiram como organizações semelhantes ao Rotary podem trabalhar com a UE para atingir as metas de desenvolvimento sustentável da ONU e construir sociedades mais pacíficas e estáveis.

Françoise Tulkens, ex-vice-presidente da Corte Europeia de Direitos Humanos, moderou a reunião, que incluiu apresentações, entre outras, de Karmenu Vella, do Comissariado Europeu para o Meio Ambiente, Assuntos Marítimos e Pesca, do presidente da Federação Belga das Câmaras de Comércio, e de John Hewko, secretário-geral do Rotary.

Karmenu Vella falou da importância de se trabalhar com o setor privado e a sociedade civil para o alcance das metas de desenvolvimento da ONU, enfatizando o relevante papel que o Rotary pode ter neste sentido em nível global.

“O Rotary tem um patrimônio invejável, que é esta rede mundial imensa e totalmente capaz de contribuir ao alcance das metas da ONU. Sem dúvida, o Rotary International ocupa uma posição privilegiada para criar alianças transformacionais entre o setor privado e a sociedade civil”, disse Vella.

John Hewko destacou a atuação do Rotary na crise migratória e no desenvolvimento de economias locais.

“No Rotary, acreditamos que os desafios podem ser vencidos através de parcerias entre a União Europeia, governos, sociedade civil, setor privado e ONGs. O relacionamento entre o Rotary e a União Europeia é uma razão e tanto para estarmos otimistas”, ressaltou Hewko.

Há motivos de sobra para crer que haverá novas oportunidades de colaboração mútua, uma vez que a UE apoia o trabalho do Rotary contra a paralisia infantil.

O evento foi coordenado pela Comissão Europeia e organizado pelos representantes do Rotary na UE. Além disso, contou com o suporte dos governadores de distritos rotários da Bélgica e de Luxemburgo.

Fonte: Notícia publicada no site Rotary.org em 10/03/2017. Editado.