Sabaidee! Sabaidee bor?

Quatro meses depois da primeira visita de um presidente norte-americano à Hiroshima aconteceu a primeira visita ao Laos.

Sabaidee! Sabaidee bor? Olá! Como está? Com essa saudação, em 6 de setembro de 2016, Barack Obama iniciou seu discurso naquele país.

Ter um presidente norte-americano no Laos era antes algo inimaginável. Seis décadas atrás, este país tinha caído em uma guerra civil. Enquanto outra guerra acontecia ao lado no Vietnã, seus vizinhos e as forças estrangeiras, incluindo os Estados Unidos, intervieram aqui.

(…) Foi uma guerra secreta que por anos o povo americano não soube que existiu. Mesmo agora, muitos americanos não conhecem bem esse capítulo da nossa história e é importante que ele seja lembrado hoje.

Durante nove anos – de 1964 a 1973 – os Estados Unidos jogaram mais de dois milhões de toneladas de bombas no Laos – mais do que jogamos na Alemanha e no Japão somados durante a II Guerra Mundial… Vilarejos e vales inteiros foram obliterados… Incontáveis civis foram mortos.

O conflito se tornou mais uma lembrança de que, qualquer que seja a causa, qualquer que seja a nossa intenção, a guerra inflige um terrível custo, especialmente em homens, mulheres e crianças inocentes. Hoje, eu venho unir-me a vocês em reconhecimento ao sofrimento e sacrifício de todos os lados daquele conflito.

(…) Eu sei também que os resquícios da guerra continuam a destroçar vidas aqui no Laos. Muitas das bombas que foram jogadas não explodiram. Ao longo dos anos, milhares de cidadãos do Laos foram mortos ou feridos – camponeses trabalhando, crianças brincando. As feridas – uma perna ou braço perdido – duram uma vida inteira.

(…) Face à nossa história aqui, acredito que os Estados Unidos têm uma obrigação moral de ajudar o Laos a se curar.

O Laos é um pequeno país comunista da Ásia, limitado ao norte pela China, ao leste pelo Vietnã, ao oeste pelo Myanmar e Tailândia e ao sul pelo Camboja.

Durante a Guerra do Vietnã, os norte-vietnamitas invadiram o Laos para apoiar a revolução comunista, e levar suprimentos através do país para os vietcongues no sul do Vietnã. O bombardeio foi parte de uma guerra secreta dos Estados Unidos para apoiar o governo monarquista na luta contra os comunistas, norte-vietnamitas e soviéticos.

Tido como o o país mais bombardeado da história – quase uma tonelada por habitante – ao todo foram feitas 580.000 missões aéreas de bombardeio. Em média um a cada oito minutos, durante 24 horas, durante 9 anos. Foram lançadas 260 milhões de bombas, a maioria de fragmentação. Cerca de 30% delas não detonaram. Oitenta milhões de explosivos permaneceram no solo após o fim da guerra, e destes, apenas 1 milhão foram encontrados.

Uma bomba de fragmentação, ao ser atirada, abre-se em pleno ar arremessando centenas de bombas menores que explodem com o contato. Quando a detonação falha, as munições atuam como minas terrestres que matam e aleijam. Elas são difíceis de serem localizadas e removidas, tornando-se uma ameaça mesmo após décadas. As do Laos parecem-se com bolas de tênis de metal. Crianças correm o maior risco, uma vez que são atraídas por sua aparência de brinquedo. Um ovo de páscoa de conteúdo explosivo.

Estima-se que, desde 1964, os explosivos perdidos tenham feito 50 mil vítimas, dos quais 29 mil mortos e 21 mil aleijados, a maioria civis.

Hoje em dia, o número de vítimas diminuiu bastante, mas o risco de detonação impede que os camponeses retornem às suas terras, deixando vastas áreas inutilizadas até ficarem livres dos explosivos – o correspondente a um terço do território do país.

Na visita, Obama anunciou o aumento da ajuda para remoção de bombas não detonadas. Noventa milhões de dólares serão gastos durante os próximos 3 anos. Um aumento significativo se comparado aos 120 milhões de dólares gastos pelo governo norte-americano nos últimos 24 anos, o mesmo que custaram as bombas usadas em apenas 9 dias de bombardeio.

Antes do anúncio de Obama, imaginava-se que a operação de remoção fosse durar centenas de anos. Agora, espera-se que demore algumas décadas.

O dia 30 de maio marca o décimo aniversário de criação do tratado internacional de eliminação das bombas de fragmentação, adotado por 120 países. Os Estados Unidos não aderiu. O Brasil também não.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

Fonte: “Remarks of President Obama to the People of Laos”, 06/09/2016 em whitehouse.gov; “Laos US: Obama Regrets Biggest Bombing In History”, 07/09/2016 em BBC; “Cluster munition” publicado na Wikipedia; “The Convention on Cluster Munitions” em clusterconvention.org.

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Resultado do Edital de Apoio a Projetos de Subsídio Global 2017-18 – 2a. Edição

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ROTARY INTERNATIONAL DISTRITO 4651
COMISSÃO DISTRITAL DA FUNDAÇÃO ROTARY
SUBCOMISSÃO DISTRITAL DE SUBSÍDIOS

Comunicamos aos Rotary Clubs do Distrito 4651 o resultado do Edital de Apoio a Projetos de Subsídio Global 2017-2018 – 2a. Edição, conforme apurado pela Comissão Julgadora formada pelo Governador Distrital, Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária e Presidente da Subcomissão Distrital de Subsídios, nos termos publicados em 1/12/2017.

Projeto: Fornecimento de equipamentos de monitoramento e diagnóstico emergencial para crianças e treinamento.
Beneficiário: Hospital Universitário Pequeno Anjo, Itajaí, SC.
Área de enfoque: Saúde materno infantil
Proponente: Rotary Club de Itajaí-Porta do Vale
Valor do projeto: US$ 47,217.00
Valor do subsídio: US$ 11,804.25 (25% do projeto)

A quantia permanecerá reservada até a aprovação do projeto pela Fundação Rotária ou até 30/11/2018, o que acontecer antes.

Itajaí, 30 de maio de 2018.

José Alberto Noldin
Governador Distrital 2017-18

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

Eder Vieira Couto
Presidente da Subcomissão Distrital de Subsídios 2017-18

Podemos alcançar a paz?

Acreditemos ou não, estamos vivendo o momento mais pacífico da humanidade. É o que afirma o psicólogo e professor de Harvard, Steven Pinker, no livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”.

O autor relata que, do homem pré-histórico ao atual, acabamos com os sacrifícios humanos da antiguidade, torturas e execuções públicas da idade média, escravidão, colonialismo e guerras mundiais. Enfim, que violência vem caindo ao longo dos séculos, e mais importante que entender as causas da violência é conhecer as causas da paz.

O Institute of Economics and Peace (Instituto de Economia e Paz) chama a ausência de violência de “Paz Negativa”. Para medi-la, o Instituto criou, em 2009, o Global Peace Index (Índice de Paz Global), que avalia aspectos da violência como a taxa de homicídios, facilidade de acesso a armas, percepção da criminalidade, e terror político, entre outros.

A sua contrapartida é a “Paz Positiva”, situação que decorre da existência de um conjunto de atitudes, instituições e estruturas que tornam as sociedades mais pacíficas. Para medi-la, o Instituto criou por sua vez, em 2015, o Positive Peace Index (Índice de Paz Positiva), que avalia os oito pilares que formam sociedades mais pacíficas: um governo que funciona bem, um ambiente empresarial sólido, distribuição equitativa de recursos, aceitação dos direitos dos outros, boas relações com os países vizinhos, fluxo livre de informações, altos níveis de capital humano, e baixos níveis de corrupção.

No Positive Peace Index de 2017, o Brasil ficou em 660 de um total de 163 países.

Os países que possuem as sociedades mais pacíficas são os nórdicos. Em seguida vêm os demais países desenvolvidos. Na América do Sul, os países mais pacíficos são o Chile e Uruguai, que ficaram em 25o e 26o lugar, respectivamente. A Argentina ficou em 56o e a Colômbia em 68o. No final da lista ficaram a Venezuela em 132o, Paquistão em 145o, Síria em 151o, Afeganistão em 157o, Coreia do Norte em 159o e Somália em último lugar.

O Rotary adotou a metodologia da Paz Positiva do Institute for Economics and Peace e firmou uma parceria estratégica com o Instituto para criar uma plataforma online de treinamento que Rotarianos e bolsistas dos Centros Rotary pela Paz poderão usar para mobilizar comunidades e desenvolver Seminários pela Paz Positiva como projetos de subsídio global.

Segundo o Instituto, cada um dos pilares da Paz Positiva tem uma importância diferente face ao estágio que se encontra o país. Entretanto, independentemente do estágio, o pilar dos baixos níveis de corrupção é o fator mais importante para o desenvolvimento e a paz de um país.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

O próximo desafio do Rotary depois da poliomielite

Em 1979, o australiano Clem Renouf, presidente mundial do Rotary, estava voltando das Filipinas onde tinha ido tratar do financiamento das primeiras campanhas de vacinação contra a pólio naquele país, quando leu na revista de bordo a notícia que a varíola havia sido erradicada. Ele logo imaginou que o Rotary poderia ajudar a erradicar uma outra doença, com igual sucesso. Porém qual?

Assim que chegou à sede do Rotary, telefonou para o médico John Sever, então governador Distrital do Rotary de Washington DC. Sever também era chefe de Infectologia do NIH, Instituto Nacional da Saúde dos EUA, e amigo de Jonas Salk e Albert Sabin. Naturalmente, ele recomendou que a pólio fosse escolhida.

A oportunidade de combater a poliomielite em escala continental veio em 1983, quando o médico brasileiro Carlyle Guerra de Macedo assumiu a direção geral da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). Macedo era um forte apoiador do Programa Expandido de Imunização da Organização Mundial da Saúde (OMS) idealizado pelo UNICEF, e convidou o médico gaúcho Ciro de Quadros para dirigir o Programa na região das Américas.

Quando Jim Grant, Diretor Geral do UNICEF, perguntou a Ciro como ele faria o programa preconizado pela OMS ser bem sucedido, Ciro sugeriu que se adotasse uma doença principal, que atraísse a atenção do público e apoio ao programa.

Para Ciro de Quadros e o Rotary, a pólio era a doença ideal para aquele objetivo. A iniciativa acabou resultando na participação do Rotary no lançamento, em 1985, do Programa de Eliminação da Pólio nas Américas da OPAS e, depois, da Iniciativa Global para a Erradicação da Pólio da OMS, em 1988.

Passados quase 40 anos daquela iniciativa nas Filipinas e 30 anos desde o lançamento do programa global, temos neste exato momento somente 8 casos da doença causados pelo vírus endógeno: 7 no Paquistão e 1 no Afeganistão, o que nos leva à inevitável pergunta: qual será o próximo desafio do Rotary depois da pólio?

Mário César Camargo, curador da Fundação Rotária e membro do Comitê de Planejamento Estratégico do Rotary, explicou na Revista Brasil Rotary que já foram definidos alguns critérios que o novo programa deve obedecer, caso ele venha existir. O programa deverá ter forte apelo aos clubes e aplicação global, permitir que Rotarianos de todo o mundo possam participar de forma significativa, e ter resultados mensuráveis, a exemplo do que ocorre no combate à pólio. Segundo ele, a preocupação não é nova. Em 2005, o Conselho Diretor do Rotary International já havia estabelecido que um novo programa global teria que ser único, temporal e finito.

Contudo, a adoção de um programa corporativo como o da pólio não é unânime. Muitos apontam a exaustão financeira e o esgotamento dos Rotarianos com a demora em se atingir o objetivo, e pregam o retorno à dedicação exclusiva aos programas no âmbito do clube e da comunidade, como era até 30 anos atrás.

Um movimento iniciado recentemente no Brasil é o da erradicação da Hepatite, através da detecção precoce da doença. Vários Rotary Clubs já abraçaram a causa, inclusive do nosso Distrito. Os médicos da Associação Brasileira dos Portadores de Hepatite (ABPH) acreditam que ela possa ser erradicada em um prazo de até 20 anos, e estão tentando levar a campanha para o nível mundial.

Todavia, de acordo com Antônio Hallage, diretor Internacional do Rotary 2009-11 e curador da Fundação 2011-15, que esteve recentemente em nossa Conferência Distrital em Itajaí, a direção do Rotary, apesar de não ter chegado a uma conclusão sobre o próximo desafio, já sabe o que ele não pode ser. Não pode ser uma doença, para não se perenizar no Rotary a imagem de organização global que tem na erradicação de doenças uma prioridade permanente, em detrimento de outras áreas definidas no Plano Visão de Futuro, quais sejam, Recursos Hídricos e Saneamento, Educação Básica, Desenvolvimento Econômico de Comunidades, Paz e Resolução de Conflitos.

Rotary Clubs de diversos países têm financiado, com o apoio da Fundação Rotária, projetos de recursos hídricos e saneamento em países menos desenvolvidos, promovendo assim o desenvolvimento comunitário e a saúde, mediante a construção de poços e canalização de água limpa, construção de banheiros comunitários e tratamento sanitário.

As áreas de enfoque ligadas à saúde são as que mais recursos recebem da Fundação Rotária, sem contar os recursos destinados à Pólio Plus. Apenas no ano passado, foram 35,4 milhões de dólares, seguidas de água e saneamento com 22,1 milhões de dólares, de um total de 99 milhões destinado ao programa de subsídios.

Da nossa parte, pensamos, que devemos sim ter um novo programa corporativo único em defesa de uma grande causa humanitária, gerando respeito da opinião pública global, sentimento de pertencimento dos Rotarianos, e a atração de novos associados.

Imaginamos que há um objetivo que se adotado corporativamente atenderia aos quesitos desejados e, além disso, é parte integrante da nossa missão. É a busca da paz através da ampliação do programa de Bolsas Rotary pela Paz, tornando-o o maior projeto do Rotary.

Há quem questione que se soubéssemos que a erradicação da pólio fosse durar tanto tempo e que o Rotary e seus parceiros iriam gastar mais de 1 bilhão de dólares por ano, como está acontecendo agora, o que teríamos feito de diferente? Possivelmente teríamos começado pelos países mais difíceis. Teríamos iniciado ações de construção da paz mais cedo, o que teria ajudado a evitar os ataques aos vacinadores e facilitado a aceitação das campanhas de imunização, reduzindo assim a duração e custo do programa.

A paz não decorre apenas da ausência de violência. Sociedades pacíficas resultam da adoção de condições de construção e manutenção da paz. As frentes são inúmeras, e será necessário um esforço sem precedentes entre países e organizações. E estamos preparados para isso.

Com sua missão de buscar a paz e compreensão entre os povos, e a dedicação de uma legião de 1,2 milhões de Rotarianos trabalhando juntos a serviço da humanidade em 220 países e regiões do mundo, é possível que não haja outra organização melhor habilitada a assumir alguns dos aspectos desse desafio como o Rotary. E por que não considerar também o aguardado sucesso na erradicação da pólio como credencial para objetivos ainda maiores?

Há mais de 10 anos, o Rotary criou o programa Centros Rotary pela Paz, que procura e qualifica renomadas Universidades para que bolsistas financiados pela Fundação Rotária sejam habilitados a lidar com questões de paz e resolução de conflitos.

Atualmente, são oferecidas 100 vagas por ano, distribuídas em Centros nos Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Austrália, Suécia e Tailândia, e são gastos 5 milhões dólares por ano com o programa.

Se aumentássemos o número de bolsas para 1.000 e dobrássemos o número de Centros de ensino, ampliando os cursos de curta duração, teríamos um orçamento de 30 a 50 milhões de dólares. É menos do que despendemos no programa de erradicação da pólio (108 milhões de dólares no ano passado). Se usarmos o poder de advocacia de causa do Rotary mobilizando apoiadores na mesma proporção que na pólio, contaríamos com um orçamento 5 vezes maior, o suficiente para custear 5.000 bolsas de estudo por ano. Se o programa durar 30 anos, seriam 60.000 promotores da paz formados pelo Rotary, além dos mais de 1.000 alumini já existentes.

O objetivo pode ter forte apelo e aplicação global,e pode ser eleito como o nosso único programa corporativo; os resultados são mensuráveis (através dos indicadores do Institute for Economics and Peace), e Rotarianos de todo o mundo podem participar.

E quanto à necessidade do objetivo ser temporal e o programa ser finito? Excetuando-se algumas doenças contagiosas que podem ser erradicadas para sempre como a pólio, os demais males da humanidade podem ser no máximo reduzidos a um mínimo aceitável. Apesar do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 1 das Nações Unidas ser a erradicação da pobreza, sua meta é acabar com a incidência de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia. Podemos adotar o mesmo conceito para a erradicação da violência ou construção de sociedades mais pacíficas: metas ousadas porém atingíveis.

Através da diplomacia, cooperação internacional, ajuda externa, criação e aplicação de leis nacionais e internacionais, resolução de conflitos étnicos, religiosos, raciais, de gênero, melhor governança das empresas, melhor preparo dos governantes e educação dos jovens para um novo mundo, chegará um momento em que os esforços poderão ser reduzidos, e depois cessados.

Juízes, diplomatas, jornalistas, economistas, profissionais da saúde, assistentes humanitários, assistentes sociais, policiais, militares, educadores – todos trabalhando pela paz. Imagine o impacto que isso faria no mundo. Cinco mil profissionais formados a cada ano, de diferentes setores da sociedade, em inúmeros países, melhores preparados para resolverem conflitos e construírem uma sociedade mais pacífica – todos trabalhando pela paz. Parece um sonho, mas não é. A Fundação Rotária já foi iniciado um processo para qualificação de mais Universidades para a criação de novos Centros Rotary pela Paz em outros idiomas que não somente o inglês, inclusive no Brasil, para ampliar o número de bolsas de estudo de curta duração. Já estamos no caminho.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

Inferno na Terra. Parte II.

No início da Segunda Guerra Mundial, estrategistas militares passaram a acreditar que vitórias poderiam ser conquistadas atacando-se a infraestrutura industrial do inimigo.

Com o desenrolar da Guerra, campanhas denominadas “bombardeios estratégicos” passaram a ser deliberadamente realizadas para atingir populações civis, a fim de produzir destruição e medo.

Necessidade militar juntamente com Distinção e Proporcionalidade são três princípios do Direito Internacional Humanitário, também conhecido por Jus in Bello, que regem o assunto.

De acordo com esses princípios, nações beligerantes podem realizar ataques contra objetivos militares, mesmo quando sabem que ocorrerão mortes não intencionais de civis – ou “danos colaterais”. Todavia, é considerado crime de guerra se um ataque intencional é lançado sem distinção sobre pessoas, envolvendo um número desproporcional de perdas civis em relação ao objetivo militar.

O desenvolvimento de aeronaves cada vez mais poderosas era tido como uma vantagem militar, o que impediu a negociação de tratados específicos sobre o uso desses equipamentos. Na ausência dessas leis, as nações guiaram-se pelas Convenções de Haia de 1899 e 1907, que tratavam apenas de ataques em terra e mar.

Essas Convenções não forneciam uma orientação clara sobre a proporção de civis que deveria ser poupada nos ataques. Por essa razão, ao final da Guerra, os tribunais de Nuremberg e de Tóquio não criminalizaram o bombardeio aéreo de alvos não combatentes, e acabaram conferindo legitimidade a essas práticas. Isso estabeleceu um precedente para as guerras da Coreia e do Vietnã, e de outras que vieram depois.

Esse tipo de ataque, não atômico, como o bombardeio de Tóquio de 1945, tem sido largamente ignorado pela opinião pública. E para alguns, as bombas atômicas eram um mero refinamento da arte do bombardeio aéreo – um meio mais eficiente para se alcançar os mesmos fins.

Com a Convenção das Nações Unidas sobre Certas Armas Convencionais de 1980, o uso de Napalm e outros materiais incendiários contra populações civis foi banido pela ONU. Mesmo assim, vários países não aderiram ao tratado.

O Rotary busca uma sociedade mais pacífica e humana através dos Centros Rotary pela Paz e das Bolsas Rotary pela Paz, formando futuros líderes para atuar nas causas e soluções das guerras e conflitos.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

Fonte: Artigos “Bombing of Tokyo”, “Collateral damage”, “Strategic bombing during World War II”, “Napalm”, “Hague Conventions of 1899 and 1907”, publicados na Wikipedia.

Inferno na Terra. Parte I.

10 de março de 1945. 01:00 da madrugada em Tóquio.

Queimando a 600 graus Celsius, as bombas continuavam a cair do céu. Não eram bombas comuns. Eram bombas incendiárias de Napalm, uma gelatina de plástico e gasolina.

A sirene antiaérea crescia em volume misturando-se ao rumor das aeronaves que sobrevoavam a cidade. Um coro crescente de pânico se seguia à medida que o incêndio começava a se espalhar.

O fogo consumiu um quarteirão e outro, e logo os quarteirões incendiados se uniram em uma imensa chama. O monstro de fogo precisava de ar para sobreviver, e começou um bocejo que passou a sugar todo o ar para criar um inferno, puxando tudo que encontrava no caminho num gigantesco turbilhão de fogo. O calor da conflagração era tão intenso que a água dos canais passou a ferver, o metal a derreter, e pessoas a pegarem fogo espontaneamente.

O inferno chegara à Terra.

No espaço de poucas horas, uma armada de 334 Boeings B-29 despejou 1.667 toneladas de bombas cheias de Napalm na capital japonesa.

O ataque foi dirigido principalmente à população civil na área central da cidade, onde vivia em casas tradicionais construídas de madeira e papel. Havia uma infinidade de pequenas fábricas.

Os bombardeiros voaram a caminho do Japão em uma única e longa procissão. Os B-29 foram ordenados a lançar as bombas durante a noite, a baixa altitude. Os primeiros a chegar jogaram as bombas criando um enorme “X” centrado na parte mais populosa de Tóquio. Os que chegaram depois simplesmente despejaram suas bombas no flamejante X.

Foi a Operação Meetinghouse, ou Local de Encontro, em português.

Uma área equivalente à metade de Manhattan foi destruída. Oitenta a 200 mil pessoas morreram. Mais de 1 milhão ficaram sem casa. Outras morreram de queimadura, doença e desnutrição nos dias seguintes.

Pouco antes das 2:00 horas da madrugada o ataque estava concluído. Tóquio estava destruída.

Sobreviventes carbonizados vagavam sem destino em meio à fumaça e às cinzas pelas ruínas da cidade.

A bomba atômica ainda não havia sido testada. Para forçar o Japão à rendição, os Estados Unidos havia estimado que o número de baixas decorrentes de uma invasão poderia exceder a 1 milhão de norte-americanos. As baixas japonesas seriam muito maiores. Restava somente uma opção: o ataque maciço das cidades japonesas com bombas incendiárias para destruir a indústria de guerra e desmoralizar a população.

O ataque aéreo foi também um ato de vingança: Pearl Harbor.

A linha divisória entre alvos civis e militares já tinha sido cruzada antes. Os principais combatentes da Segunda Guerra já adotavam a prática, Japão e Estados Unidos inclusive. Mas nunca nessa escala.

A tempestade de fogo de Tóquio foi um prelúdio para o bombardeio incendiário de mais 63 cidades e vilas japonesas antes do lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, cinco meses depois.

Ao todo, os Estados Unidos despejaram 157.000 toneladas de bombas sobre o Japão. Estima-se que 806.000 civis morreram.

O bombardeio de Tóquio nunca recebeu muita atenção. A Operação Meetinghouse foi o mais mortal ataque aéreo da história, mais que Hiroshima e Nagasaki, porém sempre permaneceu à sombra. Mesmo no Japão, poucas pessoas sabem que aconteceu, exceto aquelas que sobreviveram à tragédia .

Mas não esquecer a história é um dever para evitar que o passado não se repita no futuro.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

Fonte: “73 Years Ago Today: The Deadliest Air Raid in History, Operation Meetinghouse”, artigo publicado em 09/03/2018 na The Aviationist, “The Deadliest Air Raid in History”, artigo publicado em 09/03/2015 na AirSpaceMag, e “Cultures of War”, livro de John W. Dower.

Educar para superar a violência

A superação da violência se dá pela paz, disse o Papa Francisco na mensagem aos brasileiros para a Campanha da Fraternidade deste ano, cujo lema é “Fraternidade e superação da violência”.

Com menos de 3% da população mundial, o Brasil registra 13% dos assassinatos que ocorrem no planeta, segundo o Atlas da Violência, publicação do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança.

Por que há tanta violência no Brasil? O que podemos fazer para reduzi-la?

Aplicação rigorosa das leis existentes e cadeia seguramente contribuiriam. Mas não bastam. É preciso um sistema de educação de qualidade e que a escola ensine princípios básicos, como a moral e os bons costumes.

Como disse Ruth Cardoso, pobreza não é apenas falta de dinheiro, mas também de oportunidades. E, acrescento, oportunidades geralmente surgem para quem está preparado, com bom nível educacional. Oportunidades também se conquistam!

A evasão escolar é uma das raízes da violência no País. A média de estudantes que não concluem o ensino médio é de 41% no Brasil e de 32% em SC. Um jovem fora da lei não percebe que a educação é ponte para uma vida longa, feliz, longe da marginalidade. A educação de forma atraente, que prepare para a vida, é a melhor forma de minimizar esses dois problemas.

Educar para a vida é preparar o cidadão para aproveitar as oportunidades e reduzir a pobreza. O documento SC em Dados 2017, da FIESC, mostra que quem possui o ensino superior recebe, em média, 151% mais do que os que completaram apenas o ensino médio e estes ganham 10% mais que os que concluíram somente o ensino fundamental.

Em setembro de 2017, o Movimento SC pela Educação realizou workshop que mobilizou milhares de jovens, presencialmente e através das redes sociais. Em resumo, os jovens querem pais integrados à vida escolar, professores preparados e uma escola de qualidade que os atraia, envolva e prepare para a vida. Ou seja, uma educação que supere a violência e transforme o Brasil num país melhor. Viabilizar essa condição é nossa responsabilidade!

Artigo de Glauco José Côrte, presidente da FIESC, publicado nos jornais Diário Catarinense e A Notícia em 19/2/18. O Rotary Distrito 4651 é parceiro da FIESC no projeto de criação de laboratórios de informática em escolas públicas participantes do Movimento SC pela Educação.