Doar, emprestar, ou vender?

mosquiteiro

Melhor ensinar uma pessoa a pescar do que dar o peixe, diz o dito popular. E se a pessoa for tão pobre a ponto de não ter dinheiro nem para comprar a vara? Devemos dá-la? Vendê-la? Ou emprestá-la?

A malária é apontada como uma das principais causas da pobreza na África, que chega a matar 2 milhões de pessoas por ano. Para combater a pobreza, realizam-se programas de distribuição gratuita de mosquiteiros.

Todavia, muitos sustentam que eles não deveriam ser dados, mas vendidos, alegando que vários programas de doação não produzem os resultados desejados. Por esse motivo, novas alternativas vêm sendo utilizadas para dar ajuda aos mais necessitados que, inspiradas em princípios do mundo capitalista, merecem nossa reflexão.

Doar

Reduzir pela metade, até 2015, a população com renda inferior a um dólar por dia é a Meta número 1 dos Objetivos do Milênio da ONU.

O economista Jeffrey Sachs (autor do livro “O Fim da Pobreza”) é um dos maiores defensores do plano, e prega que os países ricos devem dobrar o valor das doações aos países pobres para ajudá-los a sair daquilo que ele chamou de “Armadilha da Pobreza”.

Sachs tem o grande mérito de levantar a questão junto à opinião pública mundial, e foi apontado pela revista Time como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo.

Contudo, o economista Paul Collier, ex-Diretor do Banco Mundial (e autor do livro “The Bottom Billion”), critica a ambição do programa e questiona a sua eficácia. Collier postula que os países ricos do G8 deveriam conceder auxílio somente para nações selecionadas segundo critérios rigorosos, de estabilidade política, transparência e democracia, entre outros.

Mais crítico, William Easterly, ex-economista do Banco Mundial (e autor do livro “The White Man’s Burden”), afirma que muito pouco do que é doado pelas agências internacionais de ajuda chega aos beneficiários finais, sendo um dos principais motivos de desestímulo aos demais doadores em potencial.

Enquanto Sachs propõe medidas a serem executadas pelas grandes agências, Easterly prega que os recursos devem ser destinados a organizações locais, que melhor conhecem os problemas da comunidade.

Contrário a “doar” diretamente aos necessitados, Easterly defende os programas de microcrédito, e investimento em “empresas sociais” – aquelas que produzem bens e serviços essenciais acessíveis à população pobre.

Emprestar

Desde 2003, o Rotary tem apoiado iniciativas de microcrédito, sendo permitido aos clubes e distritos estabelecerem seus próprios projetos, com recursos do programa de subsídios distritais ou globais.

Emprestar dinheiro em pequenas quantias foi a visão concebida por Muhammad Yunus (autor de “Banker to the Poor”), que recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua contribuição.

Yunus teve uma ideia simples mas brilhante: fornecer pequenos empréstimos para que as pessoas sem recursos pudessem iniciar pequenos negócios. Não há necessidade de garantia e a inadimplência é baixíssima.

Os interessados formam um pequeno grupo para solicitar empréstimo, que é dado inicialmente a uma só pessoa e que passa a quitá-lo em parcelas mensais. Caso o compromisso não seja honrado, os demais membros do grupo ficam impedidos de receber o empréstimo até que a dívida seja quitada.

O dinheiro é emprestado com juros, tornando possível o crescimento dos recursos para beneficiar um número cada vez maior de pessoas.

Passados 35 anos de sua criação, mais de 250 instituições em 100 países operam programas de microcrédito baseados nessa metodologia.

Yunus é contrário à ajuda na forma de doações, pois acredita que esta prática concorre e prejudica os pequenos negócios da comunidade. E como ele, muitos vêem o microcrédito como sendo mais eficiente que programas oficiais de ajuda.

Vender

Um mosquiteiro contra malária custa US$ 10 para fabricar e distribuir. A doação de mosquiteiros beneficia apenas uma parcela da população, limitada a mulheres e crianças residentes em localidades atendidas por estradas, o que impede o combate total à doença.

Jacqueline Novogratz, criadora da Fundação Acumen (e autora do livro “The Blue Sweater”), localizou e investiu recursos em uma fábrica da Tanzânia, levando uma nova tecnologia japonesa para a produção de mosquiteiros de plástico inseticida, mais duráveis que os tradicionais.

Os mosquiteiros são vendidos por menos de US$ 4 cada. A diferença é coberta pelo subsídio da Fundação. Assim, ao invés de dar de graça, com a venda evita-se desperdícios, dá-se dignidade e beneficia-se um maior número de pessoas.

A Fundação Acumen é uma ONG que investe seu capital em empresas sociais e em algumas delas chega a participar como sócia. Internet, telefonia celular, sementes, sistemas de irrigação e água purificada passaram a ser vendidos por preços acessíveis à população pobre da África, Índia e Paquistão, graças ao “mix” de investimento e empréstimo, com retorno a longo prazo, na forma de capital ou melhoria social.

Doar, emprestar, ou vender?

Doar, emprestar ou vender não são abordagens excludentes entre si. Dependendo do caso, elas podem ser complementares contanto que bem coordenadas.

Todavia, não podemos esquecer um detalhe: para que isso seja possível, é necessário dinheiro. Assim, a doação, além de ser uma forma de assistência, é sempre o começo de tudo.

Baseado no artigo de Wan Yu Chih de mesmo nome, publicado na Revista Brasil Rotary de junho de 2011.

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Primavera em Paris

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Havia um cego na calçada com um chapéu no chão. Ao lado, um pequeno quadro negro com uma anotação em giz: “Ajude um cego”.

Um publicitário parou e viu o chapéu vazio. Sem pedir licença, pegou o quadro, apagou, escreveu uma nova mensagem, e foi embora. No final do dia, retornou. Agora, o chapéu estava cheio de dinheiro.

Sentindo a sua presença, o cego perguntou, “O que foi que você escreveu?” O publicitário respondeu, “Nada que não esteja de acordo com o seu anúncio, mas com outras palavras”. Sorriu e foi embora.

O cego nunca soube, mas o seu novo cartaz dizia: “Hoje é Primavera em Paris, e não posso vê-la”.

Milhões de pessoas no mundo colocam voluntariamente suas habilidades profissionais a serviço do bem. Destas, 1.200.000 estão no Rotary. E desde 1917, o Rotary conta com uma Fundação para financiar seus projetos humanitários. Hoje, muitas pessoas podem enxergar, beber água limpa, ler, e viver em um mundo mais pacífico, graças ao apoio financeiro da Fundação Rotary.

No próximo ano, celebremos o seu Centenário.