O que faz o curador da Fundação?

mariocesarcamargo

Esta pergunta me ocorreu logo após minha confirmação como curador entrante. Passada a surpresa (pois o cargo parecia ser de acesso exclusivo a ex-diretores, mas não é), passei por um treinamento em março deste ano, e participei da primeira reunião em abril, como ouvinte. A minha primeira participação efetiva ocorreu em 10 de junho, logo após a Convenção Internacional do Rotary em São Paulo.

Os coordenadores regionais da Fundação trabalhariam sob meu comando? Os coordenadores de Doações Extraordinárias também? Ambas as funções operam para aumentar doações e projetos da Fundação Rotária em suas respectivas Zonas Rotárias.

A resposta é não, para ambos os casos. Essas funções se reportam ao diretor da Zona Rotária. Diretores têm vínculo territorial, curadores não. Diretores representam seus países ou um conjunto de países. Curadores não têm território; eles cuidam dos interesses de sustentabilidade da Fundação.

Compõem o conselho de curadores, quatro ex-presidentes do Rotary, quatro ex-diretores americanos da nossa organização, um canadense, um coreano, um ugandense, um turco, um espanhol, um indiano, um brasileiro (eu) e o secretário-geral do Rotary. Entre os brasileiros vivos que já exerceram a função encontram-se José Alfredo Pretoni e Antonio Hallage.

Os curadores não têm função operacional na rotina da Fundação Rotária, mas são os responsáveis pela sustentação dela no longo prazo.

A primeira função é cuidar dos ativos da Fundação, de forma a garantir a perpetuidade da instituição, e os recursos adequados para a concessão de subsídios para os programas. É nossa função, segurar, investir e administrar todos os fundos e propriedades da Fundação Rotária. Estamos falando de mais de 1 bilhão de dólares em ativos, que precisam ser rentáveis para garantir os programas da Fundação Rotária.

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Os curadores podem vender bens da Fundação, delegar poderes, investir e reinvestir em títulos, ações ou imóveis. Podem também determinar se o dinheiro pode ser utilizado para os projetos da Fundação, ou mantido como reserva para atingir objetivos específicos como, por exemplo, o programa Pólio Plus, para o qual foram destinados 40,3 milhões de dólares no primeiro semestre de 2015, referendados naquela reunião de junho, em São Paulo. Entre os países beneficiados, Camarões, Chade, Congo, Etiópia, Níger, Nigéria, Sudão do Sul, Afeganistão, Paquistão e Somália. Cada subsídio aprovado tem um processo pertinente, pois a Fundação não libera 40 milhões de dólares sem um estudo cuidadoso da aplicação.

Outro exemplo é, na mesma reunião, a aprovação de Subsídios Globais acima de cem mil dólares, que são necessariamente submetidos ao Conselho de Curadores. Cada projeto é aprovado mediante análise prévia da Cadre (Equipe de Consultores Técnicos da Fundação Rotária), dos coordenadores regionais da Fundação, e submetido ao Conselho com a justificativa pertinente. Essa justificativa envolve uma avaliação das necessidades da comunidade, a descrição do projeto, a sustentabilidade, os clubes parceiros, a fonte de recursos dos clubes e o orçamento resumido do projeto. A participação dos rotarianos e das comunidades, bem como das entidades parceiras, também são avaliadas. Na reunião de São Paulo, foram aprovados Subsídios Globais no valor de 1,12 milhão de dólares, beneficiando quatro distritos no Sri Lanka, na Nova Guiné, nas Filipinas e em Uganda.

Também na agenda estava o relatório do gerente geral da Fundação, John Osterlund, sobre os subsídios Distritais e Globais do período 2014-15, até 30 de abril. Em resumo, foram concedidos 451 Subsídios Distritais, num total de 24,1 milhões de dólares em Fundos Distritais, mais 826 Subsídios Globais, num total de 53,2 milhões de dólares, sendo 22,3 milhões de dólares do Fundo Mundial. Dessas 826 iniciativas, nas seis áreas de enfoque que norteiam os projetos da Fundação, 98 foram de educação, 261 de prevenção de doenças, 131 de desenvolvimento econômico, 60 de saúde infantil, 45 de prevenção de conflitos e 231 de água e saneamento. Essa divisão entre as seis áreas de enfoque mostra algumas tendências macro em termos de necessidades comunitárias.

Outra responsabilidade do curador é criar e administrar parcerias da Fundação Rotária com outras entidades afins. Atualmente, há um comitê conjunto com os diretores que trata exclusivamente de parcerias, com uma relação das maiores e melhores fundações mundiais potencialmente parceiras do Rotary em projetos humanitários.

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Logo após minha primeira reunião no Conselho de Curadores, na condição de ouvinte, fui agraciado com um presente: um iPad de última geração, com um aplicativo chamado “Boardbooks”, pelo qual a Fundação envia informações aos curadores. Há os livros atuais, como a súmula da reunião de junho de 2015, bem como históricos, como os arquivos das decisões anteriores. O centro de recursos contém as minutas das reuniões dos diretores e curadores desde 2011, o Código de Políticas do Rotary, o Código da Fundação, o Manual de Procedimento. Também engloba os orçamentos do Rotary e da Fundação, o Official Directory, o Manual dos Curadores, os Institutos deste ano, a agenda de reuniões anual, o organograma da sede e a lista telefônica de todo o estafe. Não há espaço para alegar ignorância: é como se tivessem implantado um chip em sua cabeça.

Mas voltemos às funções do curador. A relação de funções compreende, também, avaliar regularmente os programas da Fundação, sob o ponto de vista orçamentário e mesmo de conteúdo.

Além da função de gerir os recursos da Fundação, os curadores participam de comitês específicos. No meu caso, do Comitê de Programas, do Comitê Financeiro, do Comitê de Relações com ex-Bolsistas e, como curador de ligação, com o Comitê Estratégico Conjunto da Fundação e do Rotary.

O Comitê de Programas, cuja reunião ocorreu entre os dias 8 e 11 de julho [de 2015], tem um objetivo claro: a avaliação do Plano Visão de Futuro. O programa foi analisado detalhadamente. Seus cinco objetivos foram atingidos? Eles eram simplicidade, eficácia de custos, maior envolvimento do rotariano e clubes, sustentabilidade e consistência com a missão da Fundação. As críticas foram consideradas: as dificuldades dos clubes em entender o conceito de sustentabilidade, a controvérsia sobre a lista de despesas “permitidas”, a polêmica dos custos das bolsas versus os programas humanitários, a vedação ao investimento em construções, as dificuldades de comunicação das novas diretrizes aos distritos, as barreiras da tecnologia e do estafe.

A avaliação envolve um processo de consultorias externas, visitas da Cadre aos projetos, pesquisas de satisfação junto aos distritos. Mas algumas conclusões preliminares já foram apresentadas: de 2013-14 para 2014-15, o número de Subsídios Globais aumentou, passando de 868 para 1.078 (de um total de 1.652 solicitações). Seu valor pulou de 47,3 milhões de dólares para 68,7 milhões de dólares. O tempo de processamento do Subsídio Global foi reduzido de 195 para 105 dias, com meta de 40 dias úteis. O dos Subsídios Distritais passou de 59 para 36 dias úteis, com meta de 10 dias úteis.

O relatório final sairá em março de 2016. Ainda estamos na fase das perguntas na avaliação. Como dizia Confúcio, “não procuro saber as respostas; ainda procuro entender as perguntas”.

Artigo de Mário César de Camargo, curador da Fundação Rotária 2015-2019, publicado na revista Rotary Brasil em três partes, nas edições de julho, agosto e setembro de 2015. Editado.

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