Barriga artificial

Um filhote prematuro de ovelha foi mantido durante um mês em uma barriga artificial de plástico.

O filhote nasceu antes que seus pulmões estivessem desenvolvidos e foi mantido vivo dentro de um saco plástico transparente, em um meio líquido que simula as condições do ventre da mãe. Quando seus pulmões ficaram em condições de respirar, o filhote foi liberado da barriga artificial.

O tempo normal de gestação de um bebê humano é de 40 semanas. Se ele nascer em menos de 23 semanas, sua chance de sobreviver é praticamente zero. Se nascer com 24 semanas sua chance é de 50%, mesmo com a ajuda de uma incubadora. A barriga artificial foi projetada para prolongar a gestação nos casos de partos prematuros, permitindo que os bebês tenham uma chance maior de sobrevivência.

Todavia, de acordo com os cientistas, não há tecnologia capaz de substituir totalmente o ventre materno.

Somente no ano passado, cerca de um milhão de crianças morreram no dia em que nasceram e mais de 2,5 milhões morreram no primeiro mês de vida.

A morte de recém-nascidos representa quase a metade da mortalidade infantil de crianças com menos de 1 ano de idade. E a maioria das mortes neonatais acontecem devido a infecções, asfixia ou parto prematuro.

Não há necessidade de soluções caras para se combater o problema.

Ruanda, um dos países mais pobres da África, reduziu drasticamente a mortalidade neonatal em menos de uma década, adotando medidas que diminuem o risco de infecções: amamentação no seio na primeira hora de vida e durante os seis primeiros meses, melhor higiene no momento do corte do cordão umbilical, e contato entre a mãe e o bebê para elevar a sua temperatura corporal. Em Malawi, também na África, a ressuscitação por asfixia de recém-nascidos é feita com uma simples máscara respiratória presa a um balão de plástico que custa cinco dólares.

Quanto ao parto prematuro, por ora, as incubadoras serão de grande utilidade, enquanto a barriga artificial não chega.

Saúde materno-infantil é uma das áreas de enfoque da Fundação Rotária. Somente no ano passado, a Fundação destinou 6,9 milhões de dólares para 93 projetos de subsídio global na área.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-2019

Fontes: The Guardian de 25/04/2017 e Carta Anual 2017 da Fundação Bill & Melinda Gates.

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Epidemiologista José Verani na XIX Conferência do Rotary Distrito 4651

A Pólio Plus é o maior programa da Fundação Rotária, por isso, no dia 20 de maio de 2017, o epidemiologista José Fernando de Souza Verani estará em nossa XIX Conferência Distrital do Rotary Distrito 4651, para falar sobre a sua experiência na erradicação da pólio e o seu trabalho com a Fundação Rotária.

Como epidemiologista da Organização Mundial da Saúde (OMS), Verani atuou na erradicação da varíola em Bangladesh e Somália, na erradicação da pólio nas Américas, Paquistão e Afeganistão, e no controle do sarampo no Egito, Síria, Índia e África. Por quase dez anos, foi consultor da Fundação Rotária para o Programa Pólio Plus na África, Américas e Ásia. Como epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vem realizando pesquisas para o aprimoramento da vigilância sanitária de doenças contagiosas no Brasil.

WAN YU CHIH: Qual foi a experiência mais marcante que o senhor teve em sua carreira de epidemiologista internacional?

JOSÉ FERNANDO DE SOUZA VERANI: A experiência mais marcante que tive foi ter investigado e contido as últimas cadeias de transmissão da varíola na Somália em 1977, e ter contribuído para o envolvimento de milhares de Rotary Clubs na erradicação da pólio.

O que senhor sentiu ao ver o último caso de varíola da face da Terra?

Uma grande satisfação. O último caso de varíola maior [altamente mortal] na face da terra foi o de uma menina de 3 anos, Rahima Banu, de Bangladesh. Ela ficou doente em outubro de 1975 e felizmente no final de novembro estava curada. Conheci ela em dezembro, em uma celebração organizada pelo Ministério da Saúde do país e pela OMS. O último caso de varíola menor [menos agressiva que a varíola maior] foi encontrado em um rapaz, em outubro de 1977, na região em que eu trabalhava, na Somália Meridional, mas não o conheci pessoalmente pois já havia retornado ao Brasil em setembro, com a situação sob controle.

Quando a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) iniciou o Programa de Erradicação da Pólio nas Américas em 1985, os profissionais de saúde pública vieram até o Brasil para serem treinados. A Iniciativa Global de Erradicação da Pólio, lançada pela OMS em 1988, adotou​ os mesmos procedimentos do curso que o senhor ajudou a montar?

Sim, as estratégias de erradicação do poliovírus selvagem seguem até hoje o mesmo padrão em todas as outras regiões do mundo: vacinação em massa com a vacina antipólio oral, vigilância de casos suspeitos de pólio, vigilância viral (sequenciamento genético) e mobilização social. Essas estratégias foram adotadas pela OPAS com base na experiência desenvolvida no Brasil e em outros países das Américas. O curso elaborado e ministrado na ENSP/Fiocruz em 1985 teve como objetivo padronizar as estratégias do programa e expandi-las em todo o continente americano.

Como foi a sua experiência em trabalhar com a Fundação Rotária e com os Rotary Clubs?

Ter trabalhado com o Programa Pólio Plus da Fundação Rotária trouxe-me grandes satisfações e realizações. De um lado, discutir no “Board of Trustees” [Conselho de Curadores] da Fundação projetos propostos pelos rotarianos e, de outro, trabalhar com os Rotary Clubs no fortalecimento das coberturas vacinais e da vigilância epidemiológica, além de outras atividades, trouxe grande impacto no atingimento às metas de interrupção da transmissão do poliovírus do programa.

A experiência mais marcante que tive foi ter investigado e contido as últimas cadeias de transmissão da varíola na Somália em 1977, e ter contribuído para o envolvimento de milhares de Rotary Clubs na erradicação da pólio.

Por que o programa da OPAS foi mais bem sucedido na erradicação da pólio que o programa da OMS?

A Região das Américas teve sucesso mais rápido na erradicação. Embora tenhamos tido obstáculos como os causados pelas guerrilhas na região da América Central, a percepção de que a erradicação era em benefício de todos contribuiu para a organização dos “Dias de Tréguas”, quando podia-se acessar as comunidades não vacinadas e não cobertas pela vigilância de casos suspeitos de pólio. Creio que o programa de erradicação da OMS continua fazendo avanços importantes e que estamos muito perto da erradicação global da pólio, não obstante os conflitos nos países ainda endêmicos, Afeganistão, Paquistão e Nigéria.

O Brasil utilizou intensivamente a mobilização social para conseguir se livrar da pólio. Pode se dizer o mesmo dos últimos países com a doença no mundo?

Sim, a mobilização social nesses países tem sido crítica para se manter as atividades do programa. Um exemplo é o avanço da Nigéria nas áreas em que há ainda bolsões de crianças sem vacinar. Com a mobilização de amplos setores locais, nacionais e internacionais, estamos presenciando as últimas cadeias de transmissão da doença.

No Brasil, estamos às voltas com a dengue, zika, chikungunya e febre amarela – todas elas causadas pelo mosquito Aedes aegypti. Se já conseguimos eliminar até o vírus da pólio no país, por que não conseguimos acabar com o mosquito?

A complexidade dessas doenças e de seu modo de transmissão dificultam seu controle, mesmo havendo uma vacina eficiente como a antiamarílica, no caso da febre amarela. Os esforços realizados para intensificar o controle dos mosquitos têm tido impactos variáveis de acordo com a região do país. Os altos índices de infestação dos mosquitos transmissores desses vários arbovírus são resultado da falta de investimento em saneamento básico, educação e desenvolvimento social no país.

Há 15 anos, o senhor afirmou que o Paquistão seria o último país a erradicar a pólio. Por que o senhor fez essa previsão?

Pela difícil situação politico-militar entre o Afeganistão e o Paquistão que impossibilita o acesso à vacinação de grupos importantes de crianças, particularmente em áreas tribais do Paquistão, permitindo que as cadeias de transmissão do vírus se mantenham. Coincidentemente ou não, o Paquistão foi o último pais do Sudeste Asiático a erradicar a varíola nos anos 70.

Os norte-americanos Donald Henderson e Bill Foege tornaram-se figuras conhecidas na área da saúde pública, com livros que narram suas façanhas na erradicação da varíola que chamam a atenção do público, inclusive de jovens que são atraídos para a profissão. Que brasileiros o senhor destacaria como personalidades da saúde pública?

Há vários brasileiros que contribuíram de modo importante para a saúde pública e não cabe relacionar para não ser injusto. Um, no entanto, teve papel relevante tanto na erradicação da varíola quanto na da pólio, sarampo e rubéola – o Dr. Ciro de Quadros [que erradicou a varíola na Etiópia e dirigiu o programa de erradicação da pólio da OPAS].

O que o senhor teria a dizer aos jovens sobre a profissão em saúde pública?

Quanto aos jovens, qualquer coisa que eu diga sobre a saúde pública será enviesada já que é a profissão que abracei há décadas e acho fascinante. Na verdade, hoje temos mais jovens escolhendo esse caminho do que nas décadas passadas, apesar de ser uma profissão ainda pouco prestigiada no mercado de trabalho. E cada vez mais precisaremos de profissionais dispostos a enfrentar os desafios de uma saúde pública de qualidade.

Ao receber o prêmio TED em 2006, o epidemiologista Larry Brilliant disse que o mundo deveria estar preparado para o surgimento de um novo vírus que poderia atingir até 1 bilhão de pessoas em uma pandemia global, e para isso precisaríamos criar um sistema de alerta para monitorar o surgimento, em tempo real, de novas ameaças. Qual a sua opinião a respeito?

O mundo está criando condições para operar a vigilância global de modo efetivo. A detecção precoce de eventos que possam impactar a saúde publica mundial é hoje consenso de todos os países. O Regulamento Sanitário Internacional [da OMS] em vigor desde 2005 tem hoje força de lei e o monitoramento de ameaças é feito, em maior ou menor intensidade, por todos os países.

Existem críticas de que o dinheiro e o esforço gastos no combate à pólio poderiam ser usados para sanar outras doenças que afligem um número maior de crianças. Que mensagem o senhor deixaria para quem pensa assim?

Erradicar uma doença é investir no futuro. Essa decisão é tomada baseando-se em um processo complexo de análise de evidências científicas sobre as doenças candidatas à erradicação, inclusive do ponto de vista econômico.

A consolidação da erradicação da pólio, em breve, deixará um marco definitivo na cooperação do Rotary com a saúde pública, inaugurando uma importante era da parceria público-privada.

Depois que a pólio for erradicada, teremos um novo programa global de erradicação? De qual doença?

No momento não existem candidatos a um novo programa de erradicação. Contudo, existe um grande esforço da OMS para se intensificar a erradicação do vírus do sarampo e da rubéola, os quais foram eliminados da região das Américas recentemente [em 2016]. A manutenção de altas taxas de cobertura vacinal é a principal estratégia para manter os vírus afastados até que se alcance a sua erradicação. Provavelmente, nos próximos anos veremos a erradicação mundial dessas doenças.

O senhor atuou em países com graves conflitos na época: Somália, e Angola. Como foi a sua experiência em relação à segurança pessoal?

Vivi em Angola em plena guerra civil, de 1978 a 1981. Havia confrontos dentro de Luanda e uma situação de penúria em todos os setores. Não obstante, pude viajar por todo o pais, pelas estradas, sempre com escolta. Na Somália, em 1977, não existia a guerra civil que existe hoje, mas a guerra com a Etiópia, que nos assustou bastante. Enquanto estávamos no campo investigando casos suspeitos de varíola, era comum os sobrevoos dos caças MIG da União Soviética, na época aliada à Somália.

E no Paquistão e Afeganistão, o senhor teve receio dos Talibãs? E na Síria? O que o senhor sente ao acompanhar pelo noticiário a situação desses países?

Durante minha estadia no Paquistão, em Peshawar, cidade que foi berço dos Talibãs, há 13 km de fronteira ao noroeste com o Afeganistão, e não tive problemas de segurança. Antes de 2001, quando houve o ataque norte-americano ao Afeganistão, havia uma relativa paz e podia-se trabalhar em campo sem problemas. Quanto à Síria, país maravilhoso e historicamente dos mais importantes, ainda não estava em guerra. Sinto uma enorme tristeza ao acompanhar a situação desses países.

Ainda há espaço para organizações como o Rotary atuarem na saúde pública global?

Certamente! A consolidação da erradicação da pólio, em breve, deixará um marco definitivo na cooperação do Rotary com a saúde pública, inaugurando uma importante era da parceria público-privada.

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José Fernando de Souza Verani é natural de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Bacharel em Ciências Sociais pela UFRJ, Doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ESPN/Fiocruz), onde atua como docente do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia, e Pesquisador da Fiocruz, onde coordena o grupo de pesquisa sobre Vigilância em Saúde Pública.

A entrevista foi concedida a Wan Yu Chih, associado ao Rotary Club de Florianópolis e Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária do Distrito 4651.