O fim do jornalismo local

Neste ano, três candidatas se inscreveram através do nosso Distrito para as bolsas Rotary pela Paz e estão agora no aguardo da seleção pela Fundação Rotária. Uma delas é ex-jornalista do Diário Catarinense e do Notícias do Dia.

Por que profissionais de jornalismo podem ser contemplados com essa bolsa? E qual é a importância do jornalismo para a paz?

Muitas vezes, no afã de alcançar maior circulação ou audiência com notícias sensacionalistas, a mídia de massa acaba intensificando os conflitos ao invés de reduzi-los.

Perto do final da Segunda Guerra Mundial, aviões americanos lançaram bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki. Mais de 100.000 civis, incluindo mulheres e crianças, foram mortos e centenas de milhares ficaram feridos. Nos dias atuais, a maioria dos americanos condena a decisão tomada por Harry Truman. Todavia, uma semana depois das bombas terem sido jogadas, somente 5% dos norte-americanos achavam que o governo não devia ter usado essas armas; surpreendentemente, 23% achavam que o país devia ter usado mais delas, antes do Japão se render.

Em 1990, George Bush decidiu enviar as tropas para o Golfo Pérsico. Sua decisão foi apoiada pelo Congresso, que não manifestou oposição. A mídia refletiu esse consenso e apontou as razões para o envio de tropas. O povo iraquiano chegou a ser descrito pela imprensa como “os desafortunados seguidores de Saddam Hussein, o açougueiro de Bagdá”.

O efeito da cobertura unilateral dos fatos é evidente. Apenas 23% dos americanos que não viam com frequência o noticiário apoiaram a decisão, enquanto que 76% dos expectadores habituais foram favoráveis à invasão do Iraque — 53% a mais.

Liberdade de expressão e acesso à informação são os pilares de uma sociedade livre e democrática. O jornalismo independente e equilibrado, que explora a notícia sob diversos ângulos, tem sido o principal meio para que as pessoas possam se inteirar dos fatos.

Na idade média, banqueiros e comerciantes que tinham investimentos em outros países precisavam de alguém para relatar as condições de negócios e incidentes como incêndios e tumultos. Algumas pessoas eram contratadas para reportar as notícias e com isso obter uma vantagem sobre os demais. Assim surgiram os primeiros repórteres. Com a invenção da prensa vieram os jornais impressos. Com a Revolução Industrial, os jornais de grande circulação. Com o rádio e a televisão, as redes de comunicação.

A história da tecnologia se repete. Invenções existentes são superadas por outras, mais eficientes, e a maioria das pessoas acaba sendo beneficiada. Porém não é o que acontece com o jornalismo. A Revolução Digital tornou a publicidade mais eficiente, o que tem sido ótimo para os anunciantes, mas terrível para os jornais que vivem de anúncios e da venda de exemplares.

Contudo, a pergunta que se faz hoje não é mais se os jornais impressos sobreviverão. O que se questiona é se a cobertura de notícias locais continuará existindo. Os jornais locais estão acabando. Eles não conseguem competir com as grandes redes de comunicação que publicam notícias de graça na internet em troco de anúncios digitais, dado que poucos internautas estão dispostos a pagar pelas assinaturas.

Esse é um problema a ser resolvido antes que os jornais locais deixem de existir e as noticias locais deixem de ser cobertas, favorecendo assim os interesses escusos, abusos de poder e o surgimento de conflitos, colocando em risco a vida das comunidades.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

Fonte: “Age of Propaganda: The Everyday Use and Abuse of Persuasion”, livro de Anthony Pratkanis e Elliot Aronson; “Who Killed Local News?”, podcast publicado em 14/06/2018 por The Atlantic.

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