Desbancando as fake news

Os falsos boatos de que a vacina esterilizava as crianças ou de que continha derivados de porco, alimento proibido no islamismo, em 2003, levaram os líderes islâmicos da Nigéria a proibir a vacinação de crianças contra a pólio, processo que se alastrou para outros países da África. Após muito esforço, em 2014, os representantes da Organização Mundial da Saúde, Rotary e Unicef, finalmente lograram desbancar os rumores, o que permitiu que o número de casos de poliomielite no mundo caísse para 22 no ano passado.

Desde que as vacinas foram descobertas os boatos são os mesmos. Tendo em vista o surgimento crescente de pessoas que criam ou propagam fake news sobre as vacinas, a OMS elaborou, em 2017, um manual para orientar as autoridades de saúde a se prepararem para esse tipo de discussão em debates públicos.

O termo “negador” é usado para aquele que não aceita a lógica da vacinação, recusando evidências científicas e valendo-se de argumentos retóricos para dar a falsa impressão de legitimidade em suas afirmações.

Dentre as principais colocações que os negadores costumam utilizar para desinformar o público estão: (1) Não existe mais a ameaça de doença; (2) Não se pode confiar nas autoridades de saúde; (3) Existem alternativas naturais mais seguras que a vacinação; (4) As vacinas não previnem; (5) As vacinas não são seguras.

Os argumentos mais comuns utilizados para suportar a mentira são: (1) Conspirações secretas; (2) Declaração de falso especialista; (3) Artigo que desafia o consenso científico; (4) Expectativa impossível de atender; (5) Deturpação de fatos ou lógica.

Vejamos alguns exemplos apresentados no manual da OMS:

  • Negador:“Um novo manifesto assinado por 30 pesquisadores universitários foi publicado e diz que…” [Falso especialista] “as doenças estão sob controle. Não há necessidade de pedir às crianças que corram o risco de vacinação.” [Não existe mais a ameaça de doença.] Defensor: “Ser um pesquisador não o torna um especialista em vacinação, e a fonte do Senhor Z é de um falso perito. Entre os pesquisadores de vacinas, existe um amplo consenso de que as doenças só estão sob controle se permanecermos vigilantes e continuarmos a vacinar. As doenças evitáveis por vacinação podem ser muito graves e ainda causar milhões de mortes por ano.”
  • Negador: “O governo está ocultando sistematicamente os dados reais…” [Conspiração] “pois está mancomunado com a indústria farmacêutica.” [Não se pode confiar nas autoridades.] Defensor: “A noção de conspiração ignora completamente a massa de evidências científicas produzidas por cientistas independentes em todo o mundo sobre os benefícios da vacinação. Além de superestimar o poder da indústria, ela tenta desacreditar todas as autoridades de saúde.”
  • Negador: “As vacinas não são naturais e, portanto, não são saudáveis para o ser humano…” [Deturpação da lógica] “por isso a prevenção natural é melhor para nossos filhos do que soluções químicas e artificiais.” [Existem alternativas naturais.] Defensor: “O Senhor Z está usando uma lógica errada quando afirma que algo é ruim porque não é natural. Às vezes o não natural é bom. Veja por exemplo as próteses ortopédicas de titânio que são implantadas nas pessoas acidentadas. Vou repetir o que é apoiado por um corpo avassalador de evidências científicas: não há alternativas que sejam tão seguras e eficazes quanto as vacinas.”
  • Negador: “Este artigo prova que 30% das pessoas vacinadas contra o sarampo não estão protegidas contra o vírus…” [Artigo que desafia o consenso científico] “e o progresso na saúde hoje se deve à água potável, melhor moradia e melhores condições de vida em geral – não à vacinação.” [As vacinas não previnem.] Defensor: “O Senhor Z está isolando os fatos. O fato é que há uma evidência científica esmagadora mostrando que a vacinação salvou a vida de milhões de pessoas, e é uma das intervenções de saúde pública mais bem-sucedidas de todos os tempos.”
  • Negador:“Eu não sou contra a vacinação, mas não recomendarei a ninguém até que seja 100% seguro…” [Expectativa impossível de atender] “Como posso vacinar minha filha se a segurança dela não puder ser garantida?” [As vacinas não são seguras.] Defensor: “Esperar 100% de segurança é impossível. Nenhum produto ou intervenção médica, da aspirina à cirurgia cardíaca, tem uma garantia de 100%. O que sabemos com certeza é que os riscos das doenças evitáveis por vacina superam em muito os das vacinas. No pior dos casos, essas doenças matam.”

Esse tipo de argumentação está presente nas mídias sociais, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, amplificando o processo de desinformação, e estão chegando ao Brasil. Por isso, combatemos as fake news.

Wan Yu Chih
Presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária 2016-19

Fonte: “How to Respond to Vocal Vaccine Deniers in Public”; World Health Organization Regional Office for Europe, 2017.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s